sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Adeus!

18 de Dezembro de 2009, sexta-feira. Chegou a fim a minha aventura africana. Amanhã cedo parto sem regresso de volta a casa. Com a consciência do dever cumprido. Feliz pelo regresso para junto dos meus. Com um aperto no coração, pelos amigos novos. Provavel-mente não nos voltaremos a cruzar. O livro da vida é feito de capítulos vários. Uns inesquecíveis, outros nem tanto. Quando cheguei a África pela primeira vez no verão de 2007 era um europeu pós-colonialista cheio de ideais na minha cabeça. O meu conhecimento de África foi-me transmitido por familiares e amigos, além do que eu li. Conheço muitas histórias de tribos africanas. Ouvi falar em grandes líderes africanos, como Shaka ou Malangatana, reis do séc. XIX. Aníbal ou Cleópatra da antiguidade clássica. Líderes como Mandela, ainda entre nós, herói pré e pós apartheid. Líderes da independência como Sengor, Nasser ou Cabral. Adorava ver tudo o que dizia respeito à vida selvagem. Sonhava com o Kilimajaro e as neves eternas no equador. Sabia que a Tunísia incluía o ponto mais setentrional, que Dakar era o mais ocidental. Que o cabo da Boa Esperança dividia o Atlântico e o Índico. Que a Somália, no corno de África era o ponto mais a nascente. O deserto do Sara foi palco de grandes romances e aventuras. O Nilo, maior rio, atravessa desertos e grande parte da África oriental. Madagáscar é a maior ilha. Intrigavam-me os bosquímanos e a sua estranha linguagem, no deserto do Calaári. As pirâmides. O império do Gana. A ilha de Zanzibar. Tantas culturas. Toda a gente me falava das cores, dos cheiros, da chuva, dos horizontes, da magia, da terra vermelha, do sol zenital. Claro que uma coisa é saber. Outra completamente diferente é absorver, interiorizar, sentir tudo isto. Fui atingido. Deixo este lugar com uma mistura de sentimentos. Por um lado a “cidade” onde estive é uma porcaria. Lixo até onde os olhos chegam. Não há esgotos. Não há estradas, apenas pistas feitas pelos carros. O pó que cobre todos os teus poros. O coberto vegetal abusado por pessoas tentando sobreviver. Manadas de animais domésticos, substituíram toda a fauna. Estranhamente vi pessoas felizes. Aqui as pessoas têm expectativas muito baixas na vida. Ficam felizes apenas com uma palavra, um olá, um carneiro, um dia de chuva, um dia de festa. Aprendi que é possível viver com muito menos do que vivemos. Mas pelo contrário o crescimento populacional é insustentável. Não é possível gerir um continente em que a população duplica a cada quarto de século. A corrupção drena quaisquer melhorias que poderiam existir. No entanto o meu coração, não estava consciente do seu tamanho, aguentou-se e agora está em três continentes. Sei que vou voltar muito mais rico que quando cheguei. Devo ter recebido uma lição de humildade que muitos europeus necessitavam. Toda a nossa história é acerca dos nossos heróis. Como se os “outros” apenas lá estivessem para aumentar os nossos feitos. Deveria ser obrigatório que as nossas crianças aprendessem a verdade sobre as nossas acções nas colónias. Roubámos de todo o mundo. Dividimos continentes em países absolutamente falsos. Nunca nos importámos com os outros. A Europa tem uma importante hipoteca sobre quase toda a alma não europeia. Ao interiorizar isto não estou triste. De facto estou até muito feliz. Não carrego às costas todos os males do mundo. Não creio que vá parar ao inferno por estes eventos passados. Estou agora mais consciente que antes. Conheci pessoas que querem ver, aprender e tentar ajudar. Conheci pessoas que não desistiram apenas porque é difícil fazer qualquer coisa aqui. Aprendi a amar. Sei agora que sou melhor pessoa que era antes. Sei também que estou orgulhoso dos momentos partilhados. Dito isto, mais um capítulo da minha vida está escrito. Um novo está aí e eu não posso esperar para o escrever!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Tempo

11 de Dezembro de 2009, Sexta-feira. Falta apenas uma semana para terminar esta minha aventura mauritana. Parece que o tempo me está a pregar partidas. Tão longos foram os dias, ainda maiores as noites… Tantos eventos ultrapassados. Tantas memórias. Tantos factos para processar nos tempos vindouros. No entanto tão rápido tudo agora parece. É como se o tempo for de dimensão variável, castiga-nos com a lentidão da sua passagem, nos momentos difíceis, para abruptamente nos impor a sua ditadura. Para nos mostrar que independentemente do que possamos imaginar acerca do domínio humano, tal não se verifica nos domínios do tempo. O tempo é rei e senhor. Não importa o que teorizemos. Não importa os poderes que julguemos ter. Por outro lado, mesmo que pensemos em termos de passado, presente ou futuro, tal não passa de uma ilusão. É sempre presente! O passado foi o presente doutros dias. O futuro por mais risonho ou apocalíptico que seja anunciado, nunca acontecerá. Quando lá chegarmos será sempre presente! Todos os acontecimentos, todas as misérias humanas acontecem no momento presente. Talvez seja tempo de interiorizarmos que é neste momento presente, que temos, todos nós, o dever de preservar a nossa casa comum, para que os nossos filhos possam também ter o seu presente!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Diferença

30 de Novembro de 2009, Segunda-feira. Passado o período de festividades, voltámos (voltaram) hoje ao trabalho. Folgámos (folgaram) quatro dias. Juntou-se o Tabaski ou festa do carneiro ao dia da independência da Mauritânia. Este país festejou 49 anos de soberania. Gosto da forma, como por aqui se colocam os problemas. Reparemos nesta pérola, “A Mauritânia é uma país 100% muçulmano”. Aliás até a denominação o refere “República Islâmica da Mauritânia”. Se não fores muçulmano serás apenas tolerado, ou nem por isso. Isto a propósito do ignóbil ataque perpetrado ontem a um comboio humanitário de uma ONG espanhola, cujos membros dedicaram os seus melhores esforços a reunir bens para vir distribuir a mauritanos necessitados. Mais, vieram pessoalmente distribuir esses bens. Resultado, foram três deles raptados. Existirá alguma justificação plausível para atacar quem vem por bem? Existirá algum deus que deixe que em seu nome se torpedeiem aqueles que deixam as comodidades de lado e resolvem ajudar quem precisa? Quem ganhará com atitudes como esta? Não esqueçamos que a capital mais perto de Lisboa não é Madrid, mas sim Rabat! Para quem não saiba. Não pensem que isto só acontece aos outros. Não olvidem que o mundo não acaba na União Europeia. Uma das principais causas, a meu ver, para esta e outras ocorrências, advém do desconhecimento. Apenas a ignorância lucra com actos como este. Devemos tentar abrir primeiro a mente dos “nossos” e depois dos outros. O que dizer do referendo suíço que proíbe a construção de minaretes nas mesquitas suíças? É assim que os europeus demonstram o que aprenderam com a história? É assim que criticamos os que não aceitam a diferença? Não gosto de slogans, de cassetes nem de ideias feitas. No entanto há um que adoro. Pena é que não tenha frutificado. Que não seja seguido. “TODOS DIFERENTES, TODOS IGUAIS”. Deste penso que podia ser um seguidor. Eu que não acredito em seguidismos… Será que não enxergamos que a diferença é uma bênção? Diferença entre culturas, religiões, cores, sexos… Se existe algo a que eu dê o meu “Bem haja” é à diferença!!!!!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Finalmentes ...

24 de Novembro de 2009, terça-feira. Começámos de facto a pavimentação. Fizemos dois troços experimentais. Tudo correu de feição. Agora é só continuar. Portugal venceu, muito bem, a Bósnia e está apurado para a África do Sul. Tudo está bem quando acaba bem. A minha filhota já consegue “caminhar” com canadianas. Vamos entrar agora no período de festividades. Não as que possam pensar, mas no Tabaski. Para os muçulmanos, uma das quatro festas religiosas anuais. Equivalerá ao nosso natal, em termos de importância para os crentes. Significa que durante uns dias a velocidade dos trabalhos vai reduzir-se sensivelmente ou mesmo parar. Estou mesmo a entrar na recta final…

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Já fomos assim...

18 de Novembro de 2009, quarta-feira. Amanhã vamos começar a colocar betume na estrada. Se ainda falta muito trabalho para a terminar, pelo menos vamos começar a pintá-la de preto. O fim parece mais próximo. Começámos a escavar a última ponte. Parece então que iremos terminar aquilo que aqui nos trouxe. Embora pelas minhas contas isto não termine antes da Páscoa. Esta noite Portugal joga o tudo ou nada com a Bósnia-herzegovina, de apuramento para o mundial da África do Sul. Uma vez que escrevo antes, não faço ideia do que se irá passar, estou algo descrente. Espero estar enganado. Que possamos celebrar. Em caso afirmativo será das poucas alegrias que o ser português me dará em 2009. A minha filhota partiu um pé numa aula de ginástica englobada no desporto escolar. Foi completamente abandonada por TRÊS, sim TRÊS, professoras (?) que evidentemente tinham mais o que fazer. Assim não ganham apoiantes para a sua causa! Os momentos em que sobressaem os audazes, aqueles que nos dão orgulho, esperam, nalguns casos toda uma vida. Quando chegam a esmagadora maioria não está atenta e desperdiça. Conseguem passar toda uma vida de mediocridade! O “antes rei por um dia, que príncipe toda a vida” não se aplica à generalidade dos portugueses, infelizmente. Já fomos assim…

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sexta-feira 13!

13 de Novembro de 2009, sexta-feira. Sexta-feira 13. Dia conotado com o azar. Não sei se alguém sofreu de facto algum azar grande numa sexta-feira 13. Mas lá que tem má fama, lá isso tem. É de facto interessante verificar que quando realmente acreditamos em algo, é realmente possível que esse facto interfira com a nossa existência. Muito do que interfere com o nosso organismo e com a nossa vida ocorre num nível cerebral. É de facto mais susceptível de acontecer algum milagre, por interferência de algum santo, a alguém católico que a outrem que nunca ouviu falar em santos nem em milagres. É possível a um feiticeiro, ou curandeiro, ou doutor-tradicional, curar pessoas com maleitas não tratadas por médicos, desde que essas pessoas acreditem no poder (mágico) destes curandeiros. É engraçado verificar que após todos estes séculos de evolução continuamos reféns de supostos intermediários com o além, o paraíso ou que lhe quiserem chamar. E o que é mais fantástico é que a razão que levou ao aparecimento de tais crenças é a mesma que continua a levar uma grande proporção de pessoas a aceitar submeter-se a outrem com tais panegíricos. Desde o inicio que achamos que somos diferentes das outras criaturas deste planeta. Somos especiais. Logo terá que haver uma razão para tal. Essa razão é que somos protegidos de Deus. Somos uma cópia exacta. Se nos portarmos na linha teremos um prémio. Ascenderemos ao paraíso. Não conseguimos aceitar que somos parte dum todo. Somos apenas mais uma variação com que a vida brindou este planeta. Temos que nos achar especiais. Criámos então um deus à nossa imagem e semelhança. Eu sei que é perigoso dizer isto. Porque os guardiões da fé não acham piada nenhuma a alguém que lhes descobriu a careca. A alguém que lhes pode fazer perder os laudatórios. Os privilégios. Enquanto a pregação é acerca do amor, da bondade e da submissão. A prática é a repressão. O degredo. Em casos extremos a eliminação. A maioria das pessoas tem vidas de tal modo tristes e sem sentido, que tem forçosamente de encontrar um sentido para a vida. Esse sentido é a entrada no paraíso, desde que se portem na linha cá em baixo. Acham isto normal? Sejam pobres, humildes, servos, que depois serão recompensados. DEPOIS. Quem diz isto, retruca, depois de confrontado com a vida de privilégios que leva, com frases do tipo, faz o que eu digo, não o que eu faço, que eu sou pecador e a carne é fraca. Ou seja só o rebanho é que se submete. Peço muita desculpa mas não sou ovelha!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Foum Gleita

6 de Novembro de 2009, sexta-feira. Estas últimas vinte e quatro horas permitiram-me saber várias coisas que talvez já soubesse mas pelo menos ficaram mais explícitas. Primeiro não sou caçador e penso que nunca virei a sê-lo. Desde que cheguei aqui ando sempre com três telemóveis, dois mauritanos e o meu português, penso que até hoje nunca tinha ficado sem bateria nos três. Desta vez fiquei e deixei gente preocupada. Guida desculpa! Não consigo fazer o tempo andar para trás. Tenho, no entanto os três telemóveis à carga neste momento. O que é que se passou? Muito bem, aqui vai. Há bastante tempo que tinha curiosidade em saber o que move tantas pessoas a deixar o conforto e sair pelos campos à caça. Tratei de tudo e ontem à tarde fui buscar o guia e partimos os dois para a zona de Foum Gleita. De notar que o Cheikh (lê-se chérr) só fala hassanya. Daqui a Foum Gleita são uns 150 km. Mantivemos um diálogo impecável. Quando saímos da “estrada” ele caçou logo uma lebre. Pensei isto começou bem! Quando chegámos A uma aldeia que tem um nome que eu, embora o tivesse perguntado umas dez vezes não consigo escrever. Aí procurámos o “capitaine”, responsável militar pela caça na zona. Na casa deste completamente às escuras, entretive-me a apreciar a via láctea, imensa e espectacular, num céu nocturno maravilhoso, quase esquecido na nossa terra, devido à iluminação nocturna. O Cheikh, veio de lá com a autorização, por escrito, de caça. Isto, repito numa aldeia sem luz eléctrica e já completamente escuro. Aqui tive a notícia que o Sporting empatara 1-1. Também aqui liguei para casa a informar das minhas actividades. Fomos a outra aldeia onde jantámos, algo que não sei o que era. Estava completamente escuro e à moda daqui come tudo do mesmo recipiente, claro que cada qual usa a sua mãozinha. Sei que tinha cuscuz, não pelo que vi, mas pelo gosto. Continuámos, passámos noutra aldeia, que consegui perceber era a do Samba. Andámos em zonas de vegetação, que tem tanto a ver com a mauritana, como eu. Vegetação frondosa. Canais de irrigação por todo o lado. Arrozais. Aldeias. Muitas. Chegámos a um posto militar, junto da barragem. Mais uma vez o Cheikh, recebido como filho da terra. Ele foi militar, está na reforma, e serviu nesta zona, todos o reconheciam. Grandes festas. E javalis? Nada. Resolvemos atravessar o Col de Wa-Wa para o lado do lago. Ao passar no alto, surgiu uma imagem inesquecível. A lua a nascer sobre as águas. Enorme. Espelhava como se contivesse toda a prata do mundo. Descemos. Dirigimo-nos à água. Parei para tirar fotos. Noite incrível. Resolvi aproximar-me mais um pouco. Tirei a última foto, com a minha máquina não se deve ver nada. Entrei no carro e percebi que tínhamos um problema. Só por estar parado afundou. A margem parecia uma praia. Areal. Ondas, é verdade, esta albufeira é tão grande que tem ondas. Só que isto é uma barragem. O nível das águas começou a baixar. Estava parado numa zona que parecia areia. Mas não era. Por baixo da areia (5 cm) existia um limo completamente saturado. Às dez horas da noite de 5 de Novembro, comecei a escavar por baixo da carrinha. Expliquei numa chamada para casa a situação, que não era grave, apenas chata e a prometer muito tempo para resolver. Lá pela meia-noite, última chamada de casa, “vai dormir que eu tenho a noite feita” À uma da madrugada, desistimos de escavar, já com a ajuda do Abdelaye, pescador que vivia ali, grande amigo do Cheikh. Fomos a pé junto do posto militar, onde estavam todos, incluindo as sentinelas a prestar contas noutro mundo. Passámos o Wa-Wa a pé. É espectacular, a lua nesta altura já ofuscava as pequenas estrelas. A resposta dada, após insistência e muitos salam alekums, foi que amanhã, alguém lá iria ajudar. Voltámos ao carro. Eu dormi no carro. O Cheikh pediu um tapete ao Abdelaye e dormiu em cima dele coberto com o seu bubu. Hoje assisti a um nascer do sol espectacular, sobre as águas de Foum Gleita. Enquanto o Cheikh se dirigiu novamente junto da prometida ajuda eu fiquei junto do carro. Para não ficar pardo tirei mais umas quantas pazadas de areia debaixo da carrinha. Chegaram. Uns seis. Mais uma carrinha. O condutor ao ver um toubab naquela situação, começou a exigir dinheiro, embora não tenha achado piada nenhuma disse que sim, evidentemente depois de baixar a exigência para metade. Mesmo com pessoal a empurrar, uma carrinha a puxar e mais umas quantas pazadas, aquilo não saia nem por nada. Aquele limo saturado fazia sucção. Finalmente saímos. Depois de doze horas de atascanço, parecia mal voltar sem nada. O Abdelaye tinha saído para a pesca. Fomos ter com ele. Quando saímos de Foum Gleita, para onde tínhamos ido apanhar javalis, vínhamos com uns dez quilos de peixe. Alguns exemplares tinham mais de um kilo. Há muitas horas que estava sem telefone algum. Sem bateria. Logo três. Felizmente um deles é um pouquinho melhor que os outros e deu para ligar e perceber que em casa não se tinha dormido com a preocupação. Partimos. Ao fim de algum tempo a carrinha começou a falhar. Não conseguia passar dos 30 km/h. Tentei ligar para toda a gente da base e nickles. Tudo no petisco. E telefones nada. Só o Jamaldine me atendeu ao fim de algum tempo, mandou o Demba, para me rebocar se fosse o caso. Não foi preciso. Ao fim de 24 horas estava de regresso à base, pelo meu pé. Percebi que, caça não é o meu desporto. Os telemóveis, se bem que em 27 meses pela primeira vez deixei acabar as baterias de todos, são para estarem carregados. E pese as ralações que dei aos mais queridos, foi uma jornada inesquecível, de descoberta e encantamento. Notas curiosas, o Cheikh tem um filho com seis meses, chamado Luis, em minha honra. O puto é branquinho, meio alourado e tem o rabo preto como tinha a minha Inês quando nasceu. E o meu tempo aqui entrou em contagem regressiva, percebi isso quando adorei aquela lua a nascer sobre aquela albufeira. Foi o inicio do adeus.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Samba

3 de Novembro de 2009, terça-feira. Dia triste por aqui hoje. Mais um dos nossos colaboradores passou para o outro lado. O Samba era um dos tipos mais bem-dispostos, mais sorridentes que por aqui andava. Tinha sempre uma “boca” para mandar. Ainda ontem quando fui buscar o Rafa, já eram umas quatro da tarde, parámos na frente de trabalho e o Samba foi dos mais efusivos. Hoje de manhã na hora de sair para o trabalho, de chofre saiu a constatação, O Samba morreu! Daqueles com quem tive a honra de co-trabalhar é já o terceiro a partir sem pré-aviso. O primeiro foi o Abderramane, seguiu-se o Hassan e agora o Samba. Pode-se dizer que esta terra é avara para os seus. Ainda, que aqui morre-se muito! Todos eles em idade de trabalhar, logo, ainda longe da idade onde tais eventos normalmente ocorrem. Daquilo que pude constatar, neste período, já longo, em que aqui exerço o meu mister, uma percentagem enorme dos passamentos deve-se à falta de potabilidade da água! Na esmagadora maioria dos lares não há água canalizada, mesmo nas poucas cidades, como Selibaby, que a ela têm acesso. Por razões espúrias. O preço da água não é acessível (!?) à maioria das gentes. Falta informar as pessoas que água não é apenas um liquido que se ingere quando se tem sede. Especialmente num local tão quente e com tantos animais, como é o caso, todos os cuidados são poucos. No mínimo a água deveria ser fervida. Outro dos factores adversos é a falta de esgotos. É infelizmente quase impossível descrever o que é uma cidade sem esgotos e sem água corrente… No séc. XXI… Se a Europa quer suster a mole humana que a ela se dirige a partir do mundo desfavorecido, deve verdadeiramente iniciar um programa de cooperação com estes estados. Um programa de cooperação baseado no respeito pela qualidade de vida. E pelos valores da dignidade humana. Podem começar por facultar acesso a água potável, a saneamento básico, a um mínimo de salubridade que permita que não se morra tanto nesta terra.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Filosofias...

26 de Outubro de 2009, segunda-feira. Em jeito de balanço, parcial é um facto visto que a minha estadia nestas terras do fim do mundo não terminou, poderei afirmar que quando cheguei comecei a cultivar couves, rabanetes, tomates e cebolas, para vinte e seis meses depois achar no meu “jardin” papaias, bananas, quiabos, beringelas e bissap. Cheguei vindo da “civilizada” Europa, para passado todo este tempo concluir que ninguém quer saber da Europa, que esta está numa crise sem solução aparente, porquanto é uma crise geral, de valores, de paradigma, política, de estagnação económica. É uma crise burguesa, de barriga cheia, onde o individual venceu o colectivo. É uma crise conduzida por um ror de vitórias sem fim. A Europa conseguiu convencer (quase) todo o mundo que na Europa é que é bom, que o sistema económico (burguês) europeu é o melhor. Quase todos os países do mundo aderiram ao sistema político (democracia) europeu. As multinacionais europeias estão presentes em todo o mundo, a um nível superior ao período colonial. Nunca se viveu tanto, nem tão confortavelmente, nem com tanto retorno económico como agora. O que se passa então com a Europa? É um clube de ricos (anafados) fechado! Abanamos as nossas jóias para todo mundo ver (não pode tocar). Direito de admissão reservado. O paradigma económico baseado no crescimento esbarra na finitude do planeta, das matérias-primas. Basicamente poderemos dizer que pode haver muito para alguns mas não pode haver muito para todos. Estamos então muito preocupados com as nossas casas, com as nossas reformas, com o nosso estatuto de consumidores. Num mundo cada vez mais global, quem tem medo de perder o lugar, vai perdê-lo certamente. Interna e externamente. O centro de decisão partiu. Não voltará tão cedo. Não voltará enquanto a miopia e a estreiteza dominarem os espíritos dos descendentes dos Grandes que prevaleceram em idos históricos.

domingo, 25 de outubro de 2009

Alterações Climáticas

25 de Outubro de 2009, domingo. Vim para um país desértico. A chuva era tal raridade, que nos idos de 80 a esmagadora maioria das pessoas assentou arraiais. Transformou pequenos aglomerados sem estruturas em enormes ajuntamentos completamente impreparados para acolher quem quer que seja. Ao assentamento sobreveio um crescimento populacional galopante, com a duplicação de almas a cada vinte e cinco anos. Existem muitas variáveis presentes na aventura humana. Uma das que mais influência exerce sobre todos nós responde pelo nome de fortuna. Ora estas gentes sobrevivendo numa região árida, quase no limite do habitável, sem se aperceber vai assistindo ano após ano ao aumento da época chuvosa. Esta estação foi incrível sobre todos os aspectos. Tudo correu bem. Pensar que no inicio da época húmida as pessoas foram para as mesquitas pedir chuva ao Todo-Poderoso. Já passaram cinco meses e meio desde as primeiras gotas. Daqui a uns anos ainda vamos testemunhar o desenvolvimento florestal. Benditas alterações climáticas. Quais Quioto quais quê!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Renascimento

20 de Outubro de 2009, terça-feira. Renascimento! O dia 19 de Outubro de 09 vai ficar registado como o dia do meu renascimento. Ontem cerca das 7 e meia da manhã, dirigia-me eu, mais o Rafa, para Garfa, quando tudo sucedeu. O que se segue durou cerca de um segundo. Poderei dizer que se tratou de um segundo interminável. Já muitas vezes ouvira dizer que em determinadas situações, a vida, nos passa toda pela frente, em poucos momentos. Pude confirmar que tal facto infirmei. Dizia então que me dirigia a Garfa, ao chegar ao cimo de uma lomba da “estrada” deparo-me com um “monstro” branco, que velozmente se dirigia contra mim. O tal monstro era um Toyota Land Cruiser, transportava onze pessoas no seu interior mais cinco no tejadilho. Bem como toda a bagagem desses viajantes. Eu encontrava-me na minha mão, o problema era que o monstro também… A minha cara, não sei como aparentava embora imagine, a do condutor do monstro era de puro terror. As dos passageiros do tejadilho essas então eram de meter medo. Consegui observar todos os pormenores do monstro. Lembrei-me dos meus filhos em Portugal e de como estava iminente um fim inglório para a minha estada aqui. Vi perfeitamente o acidente que ocorreu. Vi os meus avós a olhar para mim. Percorri os factos ocorridos nestes últimos anos e que me trouxeram aqui. Vi-me ainda pequeno a brincar em casa dos meus pais. Vi a grelha do monstro a rir-se de mim. Um branco que encheu todo o campo visível. Senti cada músculo do Rafa a comprimir-se. Pensei, “Então é assim que tudo acaba”. De repente o monstro ataca os últimos metros em duas rodas, inclina-se para a esquerda, duma forma que só podia tombar. De repente o tempo estica-se e tenho o carro parado, estamos inteiros. Estou cansado. Custa-me a respirar. Olho para trás e vejo o monstro a voltar à verticalidade. Volta às quatro rodas. Imobiliza-se também. Está a cerca de cem metros de mim. Percebi que continuo neste mundo. Tenho um nó na garganta. Falar está a revelar-se difícil. Engreno a primeira e parto para Garfa. Ouço o Rafa dizer que temos vidas como os gatos. Ouço-me a responder, que isso é bom, mas se ter vidas de reserva é bom, gastá-las não é bom…

Quero pedir desculpa a todas as mulheres

Quero pedir desculpas a todas as mulheres que descrevi como bonitas antes de dizer inteligentes ou corajosas Fico triste por ter falado como...