segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

País adiado

O processo de desertificação que lentamente foi tomando conta do país a partir dos anos sessenta do século passado, está a atingir velocidade e proporções que poucos anteciparam. Se é verdade que durante anos as zonas atingidas foram os concelhos rurais do interior e isso não pareceu afectar os fazedores de opinião profissionais, hoje são os grandes centros urbanos do litoral e o país inteiro, que começam a compreender que o futuro talvez não passe de uma miragem.
Dos quinze milhões de portadores de BI português cinco estão espalhados pelo mundo, em busca de oportunidades, que a terra mãe lhes nega. Ao ritmo actual irão restar os velhos e os de meia-idade. Muitas terras já não têm escolas, hospitais, tribunais. Os jovens, e os não tão jovens, estão a sair do rectângulo a um ritmo só visto nos anos sessenta. Então foi o interior que foi despojado do futuro, hoje é todo o país.
Chegamos então ao paradoxo de vermos um suposto governo liberal a aumentar os impostos para níveis nórdicos, a fornecer serviços ao nível africano, a vender empresas públicas a governos estrangeiros. Os discursos são desmentidos pelos próprios autores, a cada dia. Os factos ultrapassam a capacidade oratória, fraca diga-se, dos arautos pseudoliberais.
Como estancar a hemorragia? Como inverter politicas suicidas, autodestrutivas?

Ou começamos a extrair petróleo, ou de uma vez por todas apostamos na principal riqueza do país, as pessoas. Ou começamos a valorizar menos o ter e mais o s(ab)er ou continuamos a injectar dinheiro para cima dos problemas, faltando apenas saber a data do incumprimento. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Morro do Moco

Chegou o dia esperado. Era um domingo diferente. Embora a saída não fosse logo pela manhã, acordei cedo. Aproveitei para ler um pouco. Por volta das dez e trinta estava no local de partida. Já lá estavam alguns colegas. Pelas onze e pouco partimos para a expedição acordada.
Mais um dia de calor, iríamos fazer a viagem durante o período mais quente. A deslocação decorria em bom ritmo, pese serem cinco as viaturas. Depois de algum tempo deixámos de ver a Ranger que circulava atrás de nós. A cobertura de rede telemóvel ainda deixa muito a desejar. Estávamos numa zona sem cobertura. Parámos todos e esperámos. Algum tempo depois chegou a retardatária. Estava a aquecer. A vantagem num grupo como este é que é bastante ecléctico, logo foi identificado o problema, radiador. Como houveram desistências, lográmos transferir carga e ocupantes para as restantes viaturas. A Ranger avariada voltou à base, nós continuámos, ainda tínhamos mais de quatro horas de viagem à nossa espera.
A passagem pelo Waku Kungo foi uma surpresa. O antigo colonato da Cela, ainda surpreende pela positiva, comparando com o que conhecemos de Angola. Leva-nos a imaginar como foi e podia ter sido...
No Alto Hama deixámos a N120, para o Huambo e tornámos à direita pela N250 na direcção do Lobito. Chegados a Ussoque, abandonámos o asfalto e entrámos nos últimos dez quilómetros que demorariam uma hora inteirinha a ser percorridos, balançando tanto que mesmo no mar alto um barco pareceria mais simpático para estômagos fracos.
Finalmente as majestosas montanhas estavam frente aos nossos olhos, chegámos a Kanjonde estava a decorrer uma partida de futebol, tivemos que atravessar o “estádio” para entrar na aldeia, as crianças não quiseram mais saber de futebol, queriam ver os estranhos que lhes invadiam a vida.
  Veio o Soba, apresentámos-lhe os nossos cumprimentos. Escolheu-se o sítio para a base, no alto após a aldeia. Começámos a montar as tendas e logo veio a chuva e o vento e a noite. Tudo junto. Mais uma trovoada imensa. O frio começou a apertar, apanhando-nos de supetão. Logo a mim, que pensava que nunca iria necessitar de algo mais que uma T-shirt ou uma camisa. Foi complicado acender o carvão nestas condições. Mas para um churrasco, convidado que não pode faltar é o carvão. Fizemos uma cobertura improvisada com um plástico entre duas carrinhas. Os “pilares” representaram uma invenção, se a segurança visse...
Apareceu uma guitarra e rolaram canções. O vento, a trovoada e a chuva, não devem ter gostado pois intensificaram-se tanto que as trovas acabaram cedo. Uma das tendas tinha voado rumo ao infinito. A noite prometia. Só pelas 4 da manhã houve tréguas.
O despertar foi cedo, pelas 5 e meia. Pelas caras percebia-se que a noite não tinha sido muito bem dormida. Comer alguma coisa. Preparar as mochilas, água, sumos e algo para comer. Vieram os guias, o Domingos e o Celestino. Saímos pelas 7 horas. A chuva voltou. O frio não chegou a partir. A paisagem linda de morrer. Duas linhas de água não muito profundas, não fizeram mossa na equipa, o terreno continuava praticamente plano. Após cerca de dois quilómetros iniciámos uma descida íngreme, mais de cem metros, inclinação superior a cem por cento, lançaram o primeiro alerta, como seria no regresso? Após a subida ao Cume?
Um campo de milho e um riacho de águas límpidas a chamar para um banho, talvez mais tarde, que ainda friava bastante. Continuava com um polar, nunca tinha utilizado tal adereço por terras africanas. A subida começou brutal, sem aviso prévio. A margem esquerda do riacho continuava no mesmo registo em que terminara a direita.
Vimos umas pequeninas flores amarelas, a planta completa consistia em apenas quatro folhas, carnudas, abertas a proteger a pequena flor. Nunca tínhamos visto tal. Após uns 200 metros terminou o espectáculo. As tais flores desapareceram, elas que seriam umas boas centenas no caminho que acabáramos de percorrer. Algumas árvores raquíticas ponteavam a paisagem. Mais uns riachos, pequenos mas ruidosos, foram atravessados. O terreno continuava fácil. Virámos. Terminou o flanqueamento. O nosso desafio estava em frente. Iria começar a subida. Encosta arborizada, coisa rara por estas bandas. Não sei se as pequenas árvores são o que resta, ou se são a floresta típica desta zona.
A subida empinou, o terreno apresentava-se agora, rochoso. O arvoredo cedo acabou. Depois de uma curva, um belo vale verde apresentava-se aos nossos olhos. O Morro do Moco, finalmente à vista. Ui. Tão alto... O solo negro e fundo, o capim de folha larga. O guia disse-nos que traziam os bois até ali para pastar. Parou a chuva e logo despontou sol inclemente. Polar e chapéu fora. A roupa estava mais molhada que depois de lavar, junto suor e chuva.
As pernas continuavam soltas. Permanecia no grupo da frente, logo atrás do Domingos, que por estas horas já caminhava descalço, pois as suas Havaianas tinham desistido de ser calçadas...
Última etapa da subida. Começaram as dificuldades. O chão fundo não oferecia resistência ao peso e afundava um pouco, o suficiente para tornar uma subida difícil, num desafio quase intransponível. Comecei a descolar. Primeiro um, depois dois e finalmente três, passaram-me. As passadas começaram a ser intervaladas, após cada duas ou três, por paragens cada vez mais frequentes. A subida era agora feita em ziguezagues. Chegámos ao cimo. Ufa. O cume do Morro do Moco. O ponto mais alto de Angola. 2620 metros acima do nível do mar. A vista é linda. De cortar o fôlego. Desfrutamos todos os 360°. Tudo verde. O Huambo é lindo. O resto do pessoal ia chegando. A satisfação de terminar a subida era visível nos rostos cansados. As fotos da praxe, cada qual por si. Depois todos juntos. Foi aí que me apercebi da minha grande falha. Não levei a Portuguesa. Os brasileiros tinham a sua verde-amarela com a “Ordem e Progresso” e o Cruzeiro do Sul. Os angolanos a rubro-negra com a catana e a roda dentada, mostrando a tradição e o futuro, apenas eu, único português, fiquei sem bandeira. Imperdoável.
Chegou a faixa com os dizeres “Expedição ao Morro do Moco – Odebrecht – AH Cambambe – 11/11/2012”, fotos “oficiais” dos expedicionários que atingiram o objectivo.
Começou o regresso, mais sete quilómetros aguardavam por nós. Início rápido, quase em corrida, para vingar o chão que tantas dificuldades dera na ida. Sempre na linha da frente, sempre em passo rápido.
O grupo começou a abrir brechas, deixámos o guia numa zona onde podia haver dúvidas para os que nos seguiam. Chegámos rápido ao ponto mais baixo do trajecto, o riacho de águas límpidas e convidativas, apenas a 1700 metros, 900 metros abaixo do cume. Alguns seguiram para a base, para começar o almoço, eu rápido despi a roupa transpirada e entrei na água gélida, nunca me soube tão bem um banho gelado. As pernas que tinham começado a doer, agradeceram, os pés maltratados, agradeceram mais ainda. Faltava pouco.
Vestir e arrancar para a etapa final, fácil. Fácil? Só para quem está desatento. Logo no início alertei para a dificuldade desta zona íngreme. Foi nesta subida que experimentei as maiores dificuldades. A dor nas pernas voltou inclemente. Os dois quilómetros finais pareceram duas eternidades. Os dois Valinhos da ida, transformaram-se em canions profundos, a aldeia nunca mais aparecia. Os meus sonhos iam todos para uma Cuca gelada.
Finalmente Kanjonde. Nunca um aglomerado de casas de terra e telhados de colmo, me pareceu tão convidativo. As crianças, imensas, rodearam-nos, com olhos cheios de curiosidade e barrigas cheias de fome, ou olhos cheios de fome e barrigas cheias de curiosidade.
Fomos bebendo água, que terminara. E na ausência da Cuca, foram umas cinco Cristal, portuguesas. Mais umas picanhas grelhadas, muita fruta. Tudo arrumado, tendas e lixo, não ficou nada para trás.
Havíamos chegado há duas horas e ainda faltava gente. No horizonte duas trovoadas. A chuva regressou à aldeia. O sol baixava. O frio reclamava o seu lugar. Finalmente o grupo completo. Partida de regresso a Cambambe, seis horas de viagem.
Em Cambambe às dez da noite. Calor. Chuva nem vê-la. Frio? Ná...
Foi assim que comemorámos a independência de Angola, doridos mas vivos e com vontade de trabalhar neste país. Vontade de produzir muita energia eléctrica, para que as crianças de Kanjonde não continuem a ter a escuridão por companhia todas as noites.

Deixámos livros e lápis ao Soba, para que pudesse distribuir pelas crianças, que são quase duzentas numa aldeia de trezentas almas.

domingo, 29 de setembro de 2013

Chuva

Trovejava de novo após cinco longos meses de ausência, logo grossas bátegas de água desciam pelos céus encharcando sequiosos solos, lastimosos solos sobreviventes às queimadas crescentes dos últimos meses. A côr passou do verde ao dourado e finalmente ao negro azeviche. Com as almejadas lágrimas celestiais o verde breve retomará o seu lugar nos baixios das paisagens, ultimamente escurecidas.
E o cheiro… Cheiro de terra molhada. Tão ausente nos meses recentes. Tão presente logo após as primeiras gotas terminarem a aérea viajem. Gotas prenhes de vida, tão cheias de promessas, que até parecem políticos. Ao invés destes sói dizer-se que a sua chegada é sucedida de uma explosão de vida, é um ciclo que recomeça.
Trovejava de novo, sons com o condão de todos transportar para o exterior, contemplar uma mescla de tons de cinza no lugar do firmamento. Sons dignos de ombrear com dignas composições operáticas e lado a lado elevarem olhos marejados para os raios que cruzavam céus imensos antes de escolherem o local onde se iriam entranhar.

Logo, logo os rios voltarão a ser alterosos, poderosos, fazedores de paisagens maravilhosas, proporcionando vida, proporcionando esperanças.  

domingo, 15 de setembro de 2013

Rios

Pensamentos fugidios escorregam pelos dedos e dá uma canseira voltar a pegar nos escapistas camuflados. Nesta altura de fins do cacimbo em que chuvas trovejadas se projectam e os calores anunciadores de dilúvios são só projectos ainda, sons, cheiros, sensações, sobrepõem-se cada um pulando sobre cada qual.  Antagonismos lutam numa tentação de protagonismo como se de políticos se tratara. Abstractismos erráticos aproveitam estes momentos para vir à tona e ombrear com os assuntos mundanos prácticos do dia-a-dia. Como chegámos aqui? Tantos rios viajados. Das margens tranquilas e galgáveis do Almonda até aos vales rasgados e profundos do Kwanza, das cheias enriquecedoras da infância à fonte de vida e laço de união de povos desunidos do Sahel, das montanhas demarcadas do norte, terra mãe de vinhos, ao grande rio do deserto, do maior rio ibérico ao maior do planalto angolano. Tantas nacionalidades, tantas vontades. O fascínio que sempre tributámos aos rios pegou-me forte, eu que sou ribeirinho, de uma terra de riachos vizinha de rios fartos, sempre disponíveis para partilhar riquezas, água, energia, areias, fertilizantes, peixes, paisagens, passeios…
Sucederam-se o Ribeirito, o Ribeiro grande, o Almonda, o Alviela, o Tejo, o Arade, o Guadiana, o Vouga, o Mondego, o Mira, o Senegal, o Níger, o Douro e o Kwanza, cada qual com seu caudal, com sua história, mas todos me entreabriram a janela.

Os rios fluem para o mar, como a vida vai descendo patamares até à foz, mas rios há carregados de mistério, como essa maravilha da natureza que é o Okavango, fonte de vida no deserto. Rio que corre ao contrário, adentrando-se terra infinita, que lhe bebe toda a seiva, sugando-o até ao desaparecimento, que é simultaneamente o garante da sua inolvidabilidade. Assim é a vida, se para quase todos segue caminhos pré-estabelecidos e ignaros, para os que se inquietam e trilham caminhos contrários, pode ser mais dura, mas certamente muito mais saborosa, reservando sobremesas insuspeitadas e dando sentido a caminhos árduos.

sábado, 7 de setembro de 2013

Música


Rápida ou lenta, familiar ou desconhecida. Sons que revolvem a alma, que irritam a pele, que apaixonam sorrisos. Sentimo-nos próximos, por mais mares que nos separem de casa, quando podemos escutar a “nossa” música. Une desconhecidos. Puxa-nos para a pista de dança. Obriga-nos a estudar línguas estrangeiras. Descobre amizades novas. Descobrimos que nos antípodas se ouvem os mesmos sons. Cria identidades. Erudita, popular, comercial. Intemporal ou datada. De intervenção, de amor, de guerra, nacionalista, folclórica. Antiga, clássica, moderna, punk, pop, rock, pós-moderna, minimalista. Acompanhada de poesias, instrumental. Tocada por orquestras, em bandas, grupos ou a solo. Enquanto conseguir emocionar-me a ver um pôr-do-sol, voltado a oeste num alpendre com uma cerveja gelada, a ouvir música, a sentir uma saudade imensa, sei que estou vivo e são.

sábado, 20 de julho de 2013

RX


Já fui e voltei. Aconteci. Esquentei. Absorvi.
De volta ao fresco africano, após uns dias a queimar em Portugal. Tive a felicidade, na breve permanência caseira, de poder assistir à estreia do documentário “RX” do João Luz. Despretensioso. Despojado. Mesmo sem objectivos estéticos, como o realizador assinalou, assinala um problema cada vez mais premente: Riachos tem futuro?
O presente é muito cinzento, em todo o entorno de Riachos e também no seu interior, companhias que nos habituámos a conhecer, fecham todos os dias arrastando famílias para situações que não estariam nas previsões ainda recentemente, nos tempos áureos do “Centro do Progresso”.
Se o motivo do João foi uma reação à notícia da publicação pela CM Torres Novas da lista das obras do Rodrigues, mostrando o que não foi feito em Riachos, a resultante pode ser maior que o esperado. Se é verdade que o João é candidato à Assembleia de Freguesia pelo BE e com a honrosa excepção do José Luís Jacinto (PSD) e António Mário (PCP) os restantes mostraram falta de “fair play”, para dizer o mínimo, também manda a verdade dizer que lançou uma questão que não pode ser escamoteada, Qual o futuro de Riachos? Ao que eu acrescentaria, Será que Riachos tem futuro?
Vejamos apenas factos. A Escola Chora Barroso, quando abriu, há cerca de duas décadas tinha meio milhar de alunos, hoje terá pouco mais de duas centenas e um futuro muito nublado a prazo. Ruas há em Riachos com menos de uma dezena de habitantes, em que o mais novo terá sete dezenas de primaveras. Se é verdade que os riachenses sempre procuraram sustento fora de portas, isso significava há algumas décadas, Torres Novas, Entroncamento, Alcanena, Lisboa, embora muitos conterrâneos tivessem encontrado porto seguro em Paris, Amesterdão, Londres, Luanda, Lourenço Marques, Macau. O que os novos navegadores têm à sua espera são os destinos longínquos, os tradicionais que permitiam a vida caseira, já não têm essa capacidade. O problema de Riachos então é similar, talvez mais pronunciado, às localidades vizinhas, apanhadas num remoinho voraz que tudo suga. Se sempre partimos, porque é isso agora um problema? Talvez porque ontem muitos saiam e muitos ficavam. Hoje muitos saem e alguns ficam. Amanhã talvez muitos saiam e poucos e velhos fiquem. Esse filme que parecia longínquo, já o vimos em milhares de terras desse interior, completamente abandonado. Temos um país tão pequeno e deixamos metade ao abandono…
Voltando ao “RX”, valeu pelo alerta, pelas entrevistas, pelo empenho. Houve alguém que entendeu que a sua terra merecia uma reflexão, isso nos dias de hoje já é alguma coisa. Não sou do BE, não vou votar nas eleições autárquicas, pois estou em Angola, mas tenho de reconhecer ao João a pedrada no charco. A vontade de provocar a discussão, que tão arredia tem andado dos nossos hábitos, hoje por hoje mais voltados para nós próprios, mais parecemos náufragos no meio do oceano, desejosos de ser ouvidos mas incapazes de ouvir.

Tenho para mim que se é importante embelezar a terra para aumentar a autoestima. Se as festas são tantas vezes aproveitadas pelos “navegadores” para matar saudades e ver caras conhecidas. Riachos só terá futuro se conseguir prover os seus. Como alguém já disse há muito tempo, “it’s the economy stupid”. Ou ter a sorte de algum dos seus vizinhos conseguir esse desiderato…

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Amanhã


O dia é amanhã!
Alguém diz que a esperança é vã…
O equador vou cruzar
Daqui vou zarpar
As estações vou inverter
O sol vai-me derreter!
Eu também quero ir
Não preciso fugir
Dias cheios de cor
Antecipo o sabor
De um ensopado de enguia
Amanhã é o dia!

domingo, 23 de junho de 2013

Ainda...

Tudo o que quero é ser livre. Tudo o que queremos é ser livres. O que os estados, por intermédio dos seus governantes, as igrejas por intermédio dos seus representantes e as empresas de marketing por intermédio de todos os estratagemas a que podem deitar a mão, querem é controlar-me, controlar-nos. Como é que sei isto, sabemos, e deixo que o controlo aumente a cada dia, sem nada fazer. A publicidade entrou de vez na política. Os estudos de mercado, permitem um conhecimento alargado da consciência colectiva. Sempre que baixamos a guarda lá vem mais uma “à 1984”. Desta feita o americano Snowden explicou o que o governo do seu país está a fazer. Que inclusive pirateia empresas de telefones chinesas. Escuta tudo o que se passa na net. Os americanos concordam, em nome da segurança. Acho que irão concordar sempre até chegar à sua vez…
“Se queres vender armas, cria inimigos”
Já há alguns anos que africanizo. Transformo as histórias, tantas vezes ouvidas, em ocorrências minhas. Começo a entender o que tantos, brancos e pretos, passaram por estas terras. Histórias tantas vezes brutais, tantas vezes belas. África à semelhança do seu clima, pode ser impiedosa, sendo igualmente maravilhosa. Este chão vermelho impregna-se em todos os poros de quem por cá caminha. Independentemente das opiniões e “feridas” de cada um, se algo salta à vista é que estes povos que por cá andam, mereciam melhor sorte, não no chão ou no clima, que aí não podemos fazer muito, mas no término de conflitos, tantas vezes estranhos, tantas vezes exógenos, e no verdadeiro aproveitamento da maior riqueza que qualquer terra pode ter, o seu povo! Aproveitamento não no sentido de exploração, mas no de oportunidade, equidade. Se tantos consideram que houve regressão na europa neste último lustro, o que haverá a dizer da regressão experimentada por estas terras nas últimas 4 décadas…


Como se diz por cá, quando alguma tarefa urgente está por concluir: “ainda”

domingo, 16 de junho de 2013

Tempos Difíceis


Nas alturas difíceis forjam-se solidariedades. (Re)aprende-se a colaborar. É nas dificuldades que se ganha o espírito de sacrifício. Que se aprende a sofrer. Para se formar um salto há que pôr os pés no chão e formar o impulso. Os verdadeiros amigos são aqueles que comeram connosco o pão que o diabo amassou.

Tanto haveria mais a dizer acerca de tempos passados em que os sobreviventes empreenderam a sua demanda por um sentido de vida, que poupasse os seus descendentes às dificuldades que foram obrigados a passar. Quando os tempos melhoram recordam-se com nostalgia e muitas vezes com um sorriso nos lábios, os tempos difíceis passados. Contam-se aos filhos ou netos histórias do tempo em que uma sardinha dava refeição para dois, quando eles dizem não gostar de peixe. Sempre com a esperança que eles não tenham que passar pelo mesmo.

Pois bem, esses tempos estão de volta, infelizmente. Há que aproveitá-los para fazer uma “reforma” sobre as nossas vidas. Temos que reaprender a exigir que aquilo que compramos, com tanto sacrifício, valha o que nos pedem. Temos que exigir aos eleitos que cumpram um mandato de acordo com as propostas que nos apresentaram. Que impedir que uma vez eleitos, esqueçam a democracia por quatro anos, esqueçam que só lá estão porque nos apresentaram um programa, o qual validámos. Temos que aprender a cobrar.

Temos que exigir a revisão da constituição (ou uma nova) onde fique bem claro, que quem governa tem um mandato que começa e acaba nas suas propostas eleitorais, nem mais nem menos. Até podem baixar vencimentos, despedir e cortar nas reformas, desde que isso esteja explícito no seu programa eleitoral. Temos que voltar a acreditar, antes que seja tarde e isto impluda e para além das desgraças todas que se abateram sobre nós, alguma espécie de totalitarismo volte a deixar a sua sombra negra sobre estas terras sofridas.

Algo está a mudar. Hoje voltou a discutir-se política. Queremos saber onde se corta e porquê. Onde se gasta e porquê. O debate vai evoluindo. A exigência vai aumentando. Os “boys” vão perceber que estão encurralados. Que o futuro não passará por eles. Têm que se fazer à vidinha. E isso mais cedo que tarde.

A mãe Terra tende sempre para um equilíbrio, por vezes violentamente. Afastámo-nos muito da natureza, e pensávamos que a espécie humana tinha todos os direitos sobre tudo o resto, aos poucos começamos a compreender que afinal não é bem assim. As alterações climáticas estão aí para comprovar que vivemos integrados num sistema, sem o qual não sobreviveremos. Somos parte do todo. A economia parecia uma criação do homem com regras próprias, a comprovar a nossa ascendência celestial, nada como um choque com a realidade para perceber que as leis que regem a economia são as mesmas que regem a natureza. A reação será violenta.

Não tenho dúvidas que sairemos mais fortes no final. O que não sei é quando. Nem quantos…

domingo, 9 de junho de 2013

Voo


Havia magia no ar. Sentia-se a cada inspiração. O céu vermelho. A brisa constante que estacou subitamente. Os chilreios inaudíveis. Sentia-se parte de um quadro, só não identificava qual… Reconhecia cada detalhe. Mais um esforço de memória e nada. Sentia que estava a ser testado. O silêncio que o acompanhava normalmente nas mais estranhas situações não faltava, dando-lhe uma sensação de segurança. Inspirou fundo. Fechou os olhos. Começou a reconstruir cada detalhe. Como chegara ali. Que estranha sensação de bem-estar lhe chegava desde o chão, o calor subia ruborizando as faces. Caminhara tanto para ali chegar. Ultrapassara tantos obstáculos. Desligou os sentidos, numa tentativa para isolar-se da envolvência. E foi então que compreendeu. Sorriu. Voltou a abrir os olhos. Pássaros de todas as cores e tamanhos irromperam num esvoaçar ébrio, em todas as direções sem nexo algum. Chilreios, grasnados, pios. Estava no ponto mais alto do céu. Escolheu a presa. Inspirou fundo, fechou as asas e iniciou voo picado, rápido atingiu os 300 km/h, não havia fuga possível. Quando o pobre pombo foi atingido, nem se tinha apercebido ainda da presença do mais rápido voador natural do planeta. O “Falco peregrinus”, falcão peregrino tranquilamente voava em direcção ao ninho, onde era aguardado efusivamente pelos filhotes…

domingo, 2 de junho de 2013

(Des) sonhar


(Des) sonhar. É a sina de tantos por estes dias…

Segundo um provérbio tibetano, se um problema não tem resolução, então não é um problema, é um facto. Se um problema tem resolução, então não é um problema, basta resolver.

Numa época, dita, sem líderes carismáticos, cinzenta, sem desígnios, “de fim de festa”. Os políticos passaram a ser “pragmáticos”, sem programa. A “realpolitik” passou a dominar. Os interesses pessoais estão completamente por cima dos comuns. Um tempo sem ideologias. Descrença, desemprego, desvario, destruição, desespero, des…

É chegado o tempo de resolver. Passar de uma vez por todas a reparar nos pormenores. Ler as letras pequeninas. Ouvir o que dizem os políticos. E cobrar! A democracia é o exercício do poder por representantes do povo, que para tal se habilitaram, mas também é a prestação de contas. E aí reside o nosso problema. Levamos pouco a sério as eleições. Melhor dizendo, não cobramos as promessas não cumpridas após o cumprimento dos mandatos. Deixamos aquilo que devia ser a mais nobre das ocupações, a causa pública, ser desvalorizada até ao nível da sarjeta. Não cuidamos do que é nosso. Permitimos que qualquer um se arrogue o direito de governar. Não exigimos um caderno de encargos, claro, conciso e preciso. Não cobramos.

Dito isto, verifico que ao longo da história só por breves momentos tivemos elites merecedoras de tributo. No mais apenas oportunistas e personagens menores. Dos actuais apenas constato que se tivessem consciência do lugar abjeto que a história lhes reservou desde já, teriam vergonha do papel a que se estão a prestar.

Quero pedir desculpa a todas as mulheres

Quero pedir desculpas a todas as mulheres que descrevi como bonitas antes de dizer inteligentes ou corajosas Fico triste por ter falado como...