domingo, 6 de abril de 2014

Domingo

Após um dia de pesadas plúmbeas nuvens, impermeáveis ao sol, que mesmo nessas condições conseguiu aquecer os ares, não tanto como usualmente, mas o suficiente para as almas desejarem refrescar. A tranquilidade oferecida pelas notas do “Cherry on my cake” continuou a maré iniciada cedo pela manhã. Vi uma fantástica história narrada por um anjo que quase teve vontade de ser humano por uma vez… e que começou assim: “Um simples facto. Você vai morrer. Apesar de todos os esforços ninguém vive para sempre. Lamento ser tão desmancha-prazeres. O meu conselho é: Quando chegar o momento, não entre em pânico. Ao que parece, não ajuda nada. Julgo que devia apresentar-me adequadamente. Mas por outro lado, acabará sempre por me conhecer. Não antes da sua hora, claro. Tenho por hábito evitar os vivos.”
Mais um período, mais um ciclo, mais uma viagem que se aproxima prometendo resolver um défice de abraços. É nestes dias de quase viagem que as saudades apertam, que o coração fica pequenino, que as lágrimas assomam no canto do olho. É quando as memórias desabam qual cascata de águas tumultuosas despenhando-se na direcção de mares vagamente pressentidos.
Tempo de balanço. De balança. Prós e contras. Deve e haver. E as palavras do anjo a ecoar “Apesar de todos os esforços ninguém vive para sempre.”
No meio da amálgama em que tudo se transforma uma certeza emerge, “Vale a pena? Claro que sim. Quando estamos seguros do caminho que trilhamos, por mais obstáculos que surjam, por mais dúvidas que nos atinjam, continuamos a caminhar, sabendo que após uma das muitas curvas virá a recompensa “uma vista para o vale de leite e mel”…

Pode-se viajar tanto e sentir-se sempre em casa? Cada vez acho mais que sim. A minha casa é todo o mundo e todo o mundo é a minha casa. E há o regresso. A maravilha que é regressar a casa, só sabe o sabor que tem, quem tem o destino marcado por partidas e chegadas. Aos apertos no coração das partidas seguem-se cascatas de emoções nos regressos…

terça-feira, 18 de março de 2014

Desabafo

Somos razão. Somos emoção. Somos altruístas. Somos egoístas.
À compreensão (que não aceitação) do que se passou, seguem-se momentos de impotência, de desespero. Fraquejam as pernas. Fica um nó na garganta. A lágrima assoma no canto do olho.
Foi só um momento. Vários momentos.
Dou por mim a pensar como poderia ter sido. Que raiva, não poder voltar atrás…
Que faço agora?
Eu sei que tenho que seguir em frente. Isso é o óbvio.
Que faço agora?
Choro? Fecho-me ainda mais? Imploro? Solto uns ais?
Porquê?
Somos amigos. Somos inimigos. Somos bons. Somos maus.
Pensamos em nós como o centro do mundo. Mas o mundo não sabe. Nem sequer desconfia. Irrelevantes. Grão de areia no deserto. Gota de água no oceano.
Como conciliar sol e sombra? Água e sede? Frio e calor? Bem e mal? Amor e ódio? Dia e noite? Vida e morte?
Tudo isto existe, tudo isto está à nossa volta. Como é tão fácil perceber o conceito e tão difícil aceitar a realidade?
Como posso rir chorando? Como posso ir caminhando sabendo que me estou a afastar? Como posso não ir caminhando? Que faço?
Tremo de frio nesta quentura, qual navio numa aventura, não sei se tenho estrutura, nem sequer desenvoltura.
Temo que esteja a andar em círculos, para me não afastar. Como posso me afastar? Não sei para onde vou, só sei que tenho que andar. Um dia vou encontrar a direcção, um dia vou escutar meu coração, um dia vou ouvir a razão, um dia…
Yin e yang, preto e branco, bem e mal, razão e coração?

Contradições, quem as não tem? Não estou tão mal assim. Só  precisava desabafar.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Aniversário

Hoje é o teu primeiro aniversário sem ti.
Virão depois, a primeira Páscoa sem ti.
O primeiro natal sem ti.
O dia 10 de Março de 1995 foi, sem qualquer dúvida o mais feliz da minha vida, não o trocaria por nada, foi quando pela primeira vez chorei copiosamente de felicidade. Quando deixei de ser eu e passámos a ser nós. Quando deixei de me sentir no centro do mundo. Quando passei a ter receio por aquilo que pudesse acontecer a outro.
Em Agosto de 1995, ficava tudo espantado, como uma pirralha assobiava tão bem e andava, tão pequenina, na praia da Salema. A primeira surpresa que nos reservaste numa passagem de ano foi logo na primeira, em casa do Tomé, resolveste andar sem ninguém a ajudar. Ficaste independente aos nove meses, nunca mais deixaste de o ser.
Em 2000 disseste-me que fumar fazia mal, como qualquer viciado retruquei que comer chocolate também fazia, no dia seguinte o avô disse-me que a Nocas estava doente, perguntei porquê, respondeu que pela primeira vez tinha recusado o chocolate. Custou-me na altura, mas orgulho-me de dizer que deixei de fumar porque a minha filha de cinco anos me pediu.
Ficaste desapontada por ter nascido um irmão e não uma mana, os rapazes são uns chatos…
Em 2003 surpreendeste-nos quando quiseste entrar na escola de música da banda, a tua primeira grande paixão estava encontrada, era o clarinete.
Faz hoje 9 anos que tiveste a tua primeira audição de clarinete, no auditório do Phydellius.
Entraste para o coro, um bocadinho obrigada pela mãe, mal sabias que a tua segunda grande paixão estava ali, quantas pessoas passam uma vida inteirinha sem saberem o que é a paixão e tu com doze anos já tinhas encontrado duas…
Nunca esquecerei o momento do teu primeiro solo no coral, na igreja dos salesianos no Estoril. Estava a filmar o concerto e de repente ouvi uma voz celestial, foi uma tal emoção que a recordo como se fosse hoje.
E quanto às aulas de canto? Sei que não gostavas que assistisse mas adorava ir um pouco mais cedo para te ir buscar e ficava cá em baixo a ouvir-te.
Recém-descobriste o prazer dos concursos.
Por uma vez foste atrás do teu irmão, quando eu vim para Angola e tocaste com ele na Smooth Vibrations, na Figueira da Foz, ele nunca esquecerá.
Conseguiste entrar na Metropolitana, em clarinete na aula do Nuno Silva, tal como querias, porque ultrapassaste os medos de uma miúda de 18 anos e conseguiste chamar a atenção dele. Que só te aceitou devido à tua coragem e garra.
Conseguiste entrar no Conservatório Nacional, em Canto, a tua verdadeira paixão, pela mesma razão.
Já conhecias todos os alfarrabistas de Lisboa, onde incessantemente procuravas partituras antigas. Começaste em Torres Novas, na loja do Adelino e nunca mais paraste.
Quando os outros faziam a paragem das férias de verão, tu não. Ias para a biblioteca de Torres Novas, onde a Joana te “aturava”, aprender a arte do restauro das queridas partituras. A propósito não chegaste a saber, mas sabes agora, vem aí uma Inês a caminho.
Foi um privilégio ter-te acompanhado ao longo destes curtos anos, tantas vezes ausente, bem sei, mas sempre estiveste no meu coração, sei que também eu estava no teu.
É com orgulho que te digo que amo a tua mãe e o teu irmão e todos nós somos mais ricos por termos partilhado parte do nosso caminho contigo.
Já sabia, mas agora sei-o ainda mais, és rica, só alguém muito rico tem os verdadeiros amigos que tu tens. De todas as idades, por todo o país. Quero agradecer a todos, as palavras sentidas que te têm dirigido.

Um grande bem-haja para todos, estão no nosso coração.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Partiste sem avisar

Partiste sem avisar,
Ainda recordo o teu olhar
Prenhe de felicidade,
Com a recém-adquirida maioridade.

A recente ida para a grande cidade preencheu a tua vida,
Disseste que nunca voltarias
Apenas não sabias
Que o reencontro serviria de irrevogável partida.

A dor que ficou,
As lágrimas vertidas,
As vidas sofridas,
São aquilo que restou.

Tantas questões por responder
Quantas cores para ver
Tantos livros por ler
Quantas viagens para fazer.

Às cores presentes na música, respondias
Com a textura dos sentimentos, mal sabias
Que silêncios eternos viriam, reclamar
Subitamente o teu lugar.

A minh’alma sofrida, com a beleza
Deste mundo se espanta, com tanta certeza
Assumida, tantas palavras de conforto proclamadas
Com aspereza escutadas.

Partiste sem avisar,
Querias voar,
Deixaste a tristeza a pairar,
Sobre o nosso lar.
A tua voz vejo, sem cessar
Qual passarinho a chilrear,
As tuas cores, escuto sem parar

Qual eco do mar.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Como posso explicar

Como posso explicar a dor causada por um ferro em brasa? Que palavras utilizar para exprimir o que sentimos, quando somos atingidos por um raio num dia de sol, quando nem uma nuvem cruza o horizonte?
Como posso explicar o que me vai na alma, quando 300000 portugueses saem da “zona de conforto” e partem em busca de sustento no exterior e ilustres governantes se congratulam pela descida do desemprego? Quando outros 300000 deixam de “procurar activamente” emprego e deixam de contar para a estatística?
Como posso explicar se não tenho palavras. Como pôr sons no papel? Como explicar as cores sem tintas? Como explicar os cheiros sem perfumes?
Como posso explicar um sorriso, numa alma dilacerada? Como me posso sentir único e, agora, saber que tantos atravessaram o mesmo deserto escuro, o mesmo dilúvio grosseiro, o mesmo abismo sanguinário?
Como posso explicar que a dor de um ferro em brasa é nada. Que um raio nem necessita de sol para nos atingir.
Como posso explicar que os portugueses podem escolher partir ou ficar, manter tudo igual ou mudar. Que podem procurar activamente a verdade ou esperar pelas “verdades” das agências de comunicação.
Como posso explicar que um olhar vale mais que mil palavras. Que os sons são colocados no papel. Que as cores estão todas no arco-íris. Que as flores valem mil perfumes.
Como posso explicar que um sorriso é um bálsamo para uma alma sofrida. Só me posso sentir único no meio da multidão, de outro modo estarei apenas só.
Só posso explicar, compreendendo. Só posso compreender, conhecendo. Só posso conhecer, aceitando. Só posso aceitar, explicando.
Só posso amar, amando. Só posso caminhar, caminhando.

A lua ameniza a escuridão da noite, lançando abraços de prata.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pico

"A nossa maior glória não reside no facto de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda."
Confúcio

Quando caímos num abismo da altura do mundo, primeiro pensamos que tudo acabou,
[Negro]
Quando percebemos que a terra continua a girar, por maior que seja a queda,
[Cinza]
Por maior que seja a nossa perca, é apenas um grão no infinito.
[Prata]
Um rasgão na pele, sabemos que cicatrizou,
[Amarelo]
Fica a marca, como uma linha na paisagem, qual vereda
[Laranja]
Qual caminho para o pôr-do-sol mais bonito.
[Vermelho]
Prometendo amanhãs de esperança, como os dias após um fogo que tudo queimou
[Rosa]
Visitados por chuvas mães de riachos, cheios de vida, qual tela
[Verde]
Observada a partir do mais alto Pico.

[Branco]

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Like a waterfall

 

Anger
Pain                      
Stranger
The brain
Very slowly
Choking at first
Suddenly, millions of memories fall over her like a waterfall
So many feelings, tastes, smells, colors
So bright, it is like you trying all
Same time
Wine, beer, bourbon and rum
When you just wanted
To feel the drum
Focus
Explosion of colors
Focus
Big bang
When am I?
Torrents unseen
Stop!
Who am I?
Do you think I’m crazy?

Luís Pereira

domingo, 12 de janeiro de 2014

Quando amanhã começar sem mim

Quando amanhã começar sem mim,
E eu não estiver lá para ver,
Se o sol nascer e encontrar os teus olhos
Cheios de lágrimas por mim;
Desejo ardentemente que não chores
Como choraste hoje,
Enquanto pensavas nas muitas coisas
Que nunca pudemos dizer.
Sei o quanto me amas,
Tanto quanto eu te amo,
E sempre que pensares em mim,
Sei que também terás saudades minhas;
Mas quando amanhã começar sem mim,
Tenta entender
Que um anjo apareceu e chamou o meu nome,
E me levou pela mão,
E disse que o meu lugar estava pronto,
No céu lá nas alturas
E que eu teria de deixar para trás
Todos os que tanto amo.
Mas quando virei costas para partir,
Uma lágrima rolou-me dos olhos
Pois toda a vida pensei
Que não quereria morrer.
Tinha tanto por que viver,
Tanta coisa por fazer,
Que parecia quase impossível,
Estar naquele momento a deixar-te.

Pensei em todos os dias passados,
Nas boas e más notícias,
Em todo o amor que partilhámos,
No quanto nos divertimos.
Se eu pudesse reviver o passado,
Por um momento que fosse,
Dir-te-ia adeus e beijar-te-ia
E talvez te visse sorrir.
Mas foi então que percebi
Que isso nunca aconteceria,
Pois o vazio e as memórias
Tomariam o meu lugar.
E quando pensei nas coisas mundanas
Que poderia perder amanhã
Pensei em ti, e quando o fiz
O meu coração encheu-se de dor.
Mas quando cruzei as portas do céu
Senti-me tão em casa
Quando Deus olhou para mim e me sorriu,
Do seu imenso trono dourado,
Disse: «Isto é a eternidade,
E tudo o que te prometi,
Hoje a tua vida na terra pertence ao passado
Mas aqui vai começar de novo.
Não te prometo amanhãs
Mas este dia vai durar para sempre,
E uma vez que todos os dias são o mesmo,
Não tens por que chorar o passado.
Foste sempre tão fiel,
Tão confiante e tão verdadeiro.
Ainda assim houve alturas
Em que fizeste coisas
Que sabias que não devias.
Mas foste perdoado
E és finalmente livre.
E partilha comigo a minha vida.»
Assim, quando amanhã começar sem mim,
Não penses que estamos afastados,
Pois, sempre que pensares em mim,
Estarei aqui, no teu coração.


David M. Romano

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Inês

Depois do brutal rasgão na minh’alma, que considerava à prova de bala, ocorrido às primeiras horas deste ano de 2014, fomos objecto da mais espantosa acção de carinho, solidariedade, respeito, amor.
As manifestações espontâneas vindas de todas as partes, logo que foi pública a notícia da morte da “nossa” Inês, nunca serão esquecidas. Dar-nos-ão a força para continuar a caminhada por esta terra.
Os testemunhos de quem privou mais ou menos tempo com a Inês, alguns desde a creche, outros da primária, da secundária, do conservatório, mais recentemente da universidade, mas também das bandas filarmónicas, dos coros, das orquestras, grupos de gaiteiros e grupos de animação, tocaram o nosso coração.
A família por vezes não apreende o impacto que um dos seus tem na sociedade, não digo que seja o caso, mas algumas frases escutadas, durante os longos três dias entre o acidente e o funeral, tanto nos encheram de orgulho, como nos fizeram cair num pranto.

- A Inês não tinha 18 anos! Muita gente com o dobro da idade dela nunca chegará a viver o que ela já viveu.
- Hoje percebi que devemos aproveitar a vida ao máximo, enquanto podemos, pois nunca sabemos qual o dia do nosso fim…
- Do pouco que te conheci e falei contigo, sempre te achei uma "miúda atómica" tipo divertida etc., mas a vida traiu-te…
- Minha querida amiga e vizinha, dói (muito!) a ideia de que nunca mais nos vamos cruzar por Alcântara ou nos Riachos, que nunca mais me vais fazer rir com os teus comentários inesperados, que nunca mais me vais surpreender com os teus talentos: quer fossem na música, no teatro ou na cozinha! Guardo em mim as memórias dos momentos (e foram todos bons momentos!) e queria que fossem mais, muitos mais! Que tivesses ido mais vezes jantar lá a casa e que tivéssemos feito mais ateliês de teatro juntas! Agarrada à tua memória lembrar-me-ei sempre de outra singularidade tua, a cor que vias em mim: verde-lima! Obrigada por tudo, Inês!
- Ainda não acredito no que te aconteceu Inês Pereira... A vida foi mesmo injusta contigo meu anjo, levou-te cedo demais. Descansa em Paz minha querida, e contagia o céu com a tua alegria e com o teu sorriso lindo, e acima de tudo, enche-lhes o coração com a tua música.
- Ontem, dia 1, primeiro dia do ano, um dia que supostamente deve ser cheio de felicidade, partiu uma grande rapariga do nosso mundo, a Inês Pereira. Não a conhecia muito bem, mas era uma rapariga muito talentosa, divertida e gostava daquilo que fazia. Na altura, tinha um sonho: ser uma grande clarinetista. Ela tinha medo de não ser bem-sucedida mas quem luta conquista, e decidiu realizar o seu sonho. Num acidente, tudo acabou...
Era uma rapariga espectacular, grande clarinetista e, sobretudo, era feliz!
- Um dia ainda nos encontraremos novamente meu doce. Deixas um legado que transmitirei “ad eternum”, nas aulas: a vontade de viver cada dia, como a coisa mais importante das nossas curtas vidas. Até sempre meu anjo.
- Tenho medo de me esquecer da tua voz, do teu riso, do teu cabelo, dos teus olhos, das tuas roupas, do teu clarinete, das tuas tonteiras. Tenho medo de me esquecer dos nossos curtos momentos, mas felizes e divertidos. Fazes-me muita falta, Inês.
- Infelizmente, uma grande amiga minha deixou-nos neste mundo e brilha agora com muita força no céu. Partis-te mas já não voltarás. Revivi todos os bons e maus momentos que partilhámos, todos os sorrisos, todas as lágrimas. Foi uma grande perda que me afectou bastante. Troco tudo, não consigo fazer nada direito. Estou muito nervoso e não consigo parar de comer devido ao nervosismo. Inês Pereira é uma amiga com um lugar especial no meu coração (e espero que também no vosso), que sempre me ajudou quando precisava. Simpática era a sua personalidade e muito brincalhona... Tenho tanto para dizer mas não existem palavras para expressar o que sinto... Sofrimento, dor, tristeza... tanta coisa... Certamente que vais cuidar e guiar todos nós na vida que nos segue, pois tu és uma estrela que brilha fortemente lá em cima, a olhar por todos nós. Não vou dizer «adeus», simplesmente um até breve e que me ajudes neste meu futuro que espero que seja grande. Obrigado por teres feito parte da minha vida! A ti brindo um copo de champanhe pela amizade que cultivei! Até breve!
- As nossas maluqueiras inesquecíveis que irão ficar sempre recordadas! A tua energia contagiava-me a mim e a toda a gente que falavas! Nós os dois tínhamos um desafio e prometo que hei-de conseguir cumprir!
- Ao menos viveste cada dia como se fosse o último.
- Nunca olhes para trás... A não ser que seja uma boa vista.
Eu acho, assim de vez em quando, que vou olhar um bocado...
- Hoje os meus pensamentos estão apenas e só com a Inês Pereira. Como da última vez em que a ouvi cantar. Assim...
"Voy a viajar, voy a bailar, bailar, bailar, quiero bailar, voy a vivir en el medio del campo y a las mañanas me voy a levantar.”
- As minhas palavras pouco acrescentam ao que aqui está escrito. Só prova que deixas muita gente atordoada com a tua partida. Se há injustiças do mundo que não se admitem, uma delas é a tua. É incompreensível.
Fica bem, onde estejas, ainda que por aqui tenhas deixado uma história a meio.
- Apesar de já saber há algumas horas o que se passou ainda não consigo acreditar, talvez não queira encarar a realidade! Custa-me que aconteça este tipo de coisas a pessoas como tu. Não conheço ninguém que seja tão alegre e que aproveite tão bem a vida como tu o fazias. Acredito que se isto aconteceu foi porque tinha mesmo que ser e acredito também que estás muito bem onde quer que estejas. Inês olha por todos nós aí de cima. O céu ganhou mais uma estrelinha. Descansa em paz! Adoro-te.
- Há coisas que realmente não se conseguem explicar. Eras irreverente e primavas por um sorriso inigualável. Quem vai agora dizer-nos "a cor dos nossos nomes"?
Descansa em paz pequena Inês. Mais uma estrela no céu, desta vez bem brilhante e "colorida".
- Eras a minha coisinha linda, uma artista muito maior que a tua altura, uma amiga verdadeira, uma clarinetista do melhor que já ouvi e não só. Estou mais pobre. Estamos todos mais pobres.
- Ainda estou a tentar mentalizar-me do que aconteceu. Não merecias partir tão cedo. Conhecemo-nos num dos melhores estágios de orquestra que já alguma vez fiz e tu foste das poucas pessoas que o tornaram tão especial. Ajudaste-me a crescer enquanto ser humano das melhores maneiras possíveis e tornaste-me uma pessoa mais feliz. Marcaste a minha vida, Inês. Nunca te esquecerei! Vou lembrar-me de ti de uma maneira feliz, tal como sempre foste, pois a felicidade que transmitias era maior que tudo o resto. Sempre foste uma sonhadora! Uma enorme clarinetista! Uma cantora fenomenal... És das pessoas mais únicas que conheci e estarás sempre no meu coração! Serás das estrelas mais brilhantes do céu! Descansa em paz.
- Não tenho palavras, não tenho reacção mental. Não consigo descrever o que sinto neste momento. Mas uma coisa sei, foi um prazer enorme ter-te conhecido, foram momentos incríveis e inesquecíveis que passamos juntas. Fui uma sortuda em ter estado contigo nesta última fase da tua curta vida. Nunca te vou esquecer, estarás sempre no meu coração e vou sempre pensar em ti. Vais-me fazer imensa falta, e tenho a noção que vou morrer de saudades, mas não me resta mais nada senão aceitar que partiste e lágrimas. Obrigada por tudo. Por teres sido o que eras, e que para mim nunca vais deixar de ser. Obrigada. Descansa em paz minha querida, vou ter muitas saudades.

- in memoriam Inês Pereira (1995-2014)

um dia escrevi o teu nome assim...


Inventaste um lugar e da tua voz
Nasceu o hino, cântico nobre que
Entoas quando sonhas, dando cor ao
Silêncio que se curva sob os teus passos.


Povoaste esse recanto com ternura em flor
Elevaste toda a terra a poesia primordial
Recebeste todos os sons no teu olhar -
E em teu redor a felicidade assumiu a forma
Inebriante de um sol de pétalas infinitas,
Reflexos multicolores que anunciam a tua chegada -
Aurora que embala todas as madrugadas.


Hoje de ti me despeço com o teu nome na alma, com a tua luz que nunca me abandonará, querida.

Até sempre, 'Nês.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

País adiado

O processo de desertificação que lentamente foi tomando conta do país a partir dos anos sessenta do século passado, está a atingir velocidade e proporções que poucos anteciparam. Se é verdade que durante anos as zonas atingidas foram os concelhos rurais do interior e isso não pareceu afectar os fazedores de opinião profissionais, hoje são os grandes centros urbanos do litoral e o país inteiro, que começam a compreender que o futuro talvez não passe de uma miragem.
Dos quinze milhões de portadores de BI português cinco estão espalhados pelo mundo, em busca de oportunidades, que a terra mãe lhes nega. Ao ritmo actual irão restar os velhos e os de meia-idade. Muitas terras já não têm escolas, hospitais, tribunais. Os jovens, e os não tão jovens, estão a sair do rectângulo a um ritmo só visto nos anos sessenta. Então foi o interior que foi despojado do futuro, hoje é todo o país.
Chegamos então ao paradoxo de vermos um suposto governo liberal a aumentar os impostos para níveis nórdicos, a fornecer serviços ao nível africano, a vender empresas públicas a governos estrangeiros. Os discursos são desmentidos pelos próprios autores, a cada dia. Os factos ultrapassam a capacidade oratória, fraca diga-se, dos arautos pseudoliberais.
Como estancar a hemorragia? Como inverter politicas suicidas, autodestrutivas?

Ou começamos a extrair petróleo, ou de uma vez por todas apostamos na principal riqueza do país, as pessoas. Ou começamos a valorizar menos o ter e mais o s(ab)er ou continuamos a injectar dinheiro para cima dos problemas, faltando apenas saber a data do incumprimento. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Morro do Moco

Chegou o dia esperado. Era um domingo diferente. Embora a saída não fosse logo pela manhã, acordei cedo. Aproveitei para ler um pouco. Por volta das dez e trinta estava no local de partida. Já lá estavam alguns colegas. Pelas onze e pouco partimos para a expedição acordada.
Mais um dia de calor, iríamos fazer a viagem durante o período mais quente. A deslocação decorria em bom ritmo, pese serem cinco as viaturas. Depois de algum tempo deixámos de ver a Ranger que circulava atrás de nós. A cobertura de rede telemóvel ainda deixa muito a desejar. Estávamos numa zona sem cobertura. Parámos todos e esperámos. Algum tempo depois chegou a retardatária. Estava a aquecer. A vantagem num grupo como este é que é bastante ecléctico, logo foi identificado o problema, radiador. Como houveram desistências, lográmos transferir carga e ocupantes para as restantes viaturas. A Ranger avariada voltou à base, nós continuámos, ainda tínhamos mais de quatro horas de viagem à nossa espera.
A passagem pelo Waku Kungo foi uma surpresa. O antigo colonato da Cela, ainda surpreende pela positiva, comparando com o que conhecemos de Angola. Leva-nos a imaginar como foi e podia ter sido...
No Alto Hama deixámos a N120, para o Huambo e tornámos à direita pela N250 na direcção do Lobito. Chegados a Ussoque, abandonámos o asfalto e entrámos nos últimos dez quilómetros que demorariam uma hora inteirinha a ser percorridos, balançando tanto que mesmo no mar alto um barco pareceria mais simpático para estômagos fracos.
Finalmente as majestosas montanhas estavam frente aos nossos olhos, chegámos a Kanjonde estava a decorrer uma partida de futebol, tivemos que atravessar o “estádio” para entrar na aldeia, as crianças não quiseram mais saber de futebol, queriam ver os estranhos que lhes invadiam a vida.
  Veio o Soba, apresentámos-lhe os nossos cumprimentos. Escolheu-se o sítio para a base, no alto após a aldeia. Começámos a montar as tendas e logo veio a chuva e o vento e a noite. Tudo junto. Mais uma trovoada imensa. O frio começou a apertar, apanhando-nos de supetão. Logo a mim, que pensava que nunca iria necessitar de algo mais que uma T-shirt ou uma camisa. Foi complicado acender o carvão nestas condições. Mas para um churrasco, convidado que não pode faltar é o carvão. Fizemos uma cobertura improvisada com um plástico entre duas carrinhas. Os “pilares” representaram uma invenção, se a segurança visse...
Apareceu uma guitarra e rolaram canções. O vento, a trovoada e a chuva, não devem ter gostado pois intensificaram-se tanto que as trovas acabaram cedo. Uma das tendas tinha voado rumo ao infinito. A noite prometia. Só pelas 4 da manhã houve tréguas.
O despertar foi cedo, pelas 5 e meia. Pelas caras percebia-se que a noite não tinha sido muito bem dormida. Comer alguma coisa. Preparar as mochilas, água, sumos e algo para comer. Vieram os guias, o Domingos e o Celestino. Saímos pelas 7 horas. A chuva voltou. O frio não chegou a partir. A paisagem linda de morrer. Duas linhas de água não muito profundas, não fizeram mossa na equipa, o terreno continuava praticamente plano. Após cerca de dois quilómetros iniciámos uma descida íngreme, mais de cem metros, inclinação superior a cem por cento, lançaram o primeiro alerta, como seria no regresso? Após a subida ao Cume?
Um campo de milho e um riacho de águas límpidas a chamar para um banho, talvez mais tarde, que ainda friava bastante. Continuava com um polar, nunca tinha utilizado tal adereço por terras africanas. A subida começou brutal, sem aviso prévio. A margem esquerda do riacho continuava no mesmo registo em que terminara a direita.
Vimos umas pequeninas flores amarelas, a planta completa consistia em apenas quatro folhas, carnudas, abertas a proteger a pequena flor. Nunca tínhamos visto tal. Após uns 200 metros terminou o espectáculo. As tais flores desapareceram, elas que seriam umas boas centenas no caminho que acabáramos de percorrer. Algumas árvores raquíticas ponteavam a paisagem. Mais uns riachos, pequenos mas ruidosos, foram atravessados. O terreno continuava fácil. Virámos. Terminou o flanqueamento. O nosso desafio estava em frente. Iria começar a subida. Encosta arborizada, coisa rara por estas bandas. Não sei se as pequenas árvores são o que resta, ou se são a floresta típica desta zona.
A subida empinou, o terreno apresentava-se agora, rochoso. O arvoredo cedo acabou. Depois de uma curva, um belo vale verde apresentava-se aos nossos olhos. O Morro do Moco, finalmente à vista. Ui. Tão alto... O solo negro e fundo, o capim de folha larga. O guia disse-nos que traziam os bois até ali para pastar. Parou a chuva e logo despontou sol inclemente. Polar e chapéu fora. A roupa estava mais molhada que depois de lavar, junto suor e chuva.
As pernas continuavam soltas. Permanecia no grupo da frente, logo atrás do Domingos, que por estas horas já caminhava descalço, pois as suas Havaianas tinham desistido de ser calçadas...
Última etapa da subida. Começaram as dificuldades. O chão fundo não oferecia resistência ao peso e afundava um pouco, o suficiente para tornar uma subida difícil, num desafio quase intransponível. Comecei a descolar. Primeiro um, depois dois e finalmente três, passaram-me. As passadas começaram a ser intervaladas, após cada duas ou três, por paragens cada vez mais frequentes. A subida era agora feita em ziguezagues. Chegámos ao cimo. Ufa. O cume do Morro do Moco. O ponto mais alto de Angola. 2620 metros acima do nível do mar. A vista é linda. De cortar o fôlego. Desfrutamos todos os 360°. Tudo verde. O Huambo é lindo. O resto do pessoal ia chegando. A satisfação de terminar a subida era visível nos rostos cansados. As fotos da praxe, cada qual por si. Depois todos juntos. Foi aí que me apercebi da minha grande falha. Não levei a Portuguesa. Os brasileiros tinham a sua verde-amarela com a “Ordem e Progresso” e o Cruzeiro do Sul. Os angolanos a rubro-negra com a catana e a roda dentada, mostrando a tradição e o futuro, apenas eu, único português, fiquei sem bandeira. Imperdoável.
Chegou a faixa com os dizeres “Expedição ao Morro do Moco – Odebrecht – AH Cambambe – 11/11/2012”, fotos “oficiais” dos expedicionários que atingiram o objectivo.
Começou o regresso, mais sete quilómetros aguardavam por nós. Início rápido, quase em corrida, para vingar o chão que tantas dificuldades dera na ida. Sempre na linha da frente, sempre em passo rápido.
O grupo começou a abrir brechas, deixámos o guia numa zona onde podia haver dúvidas para os que nos seguiam. Chegámos rápido ao ponto mais baixo do trajecto, o riacho de águas límpidas e convidativas, apenas a 1700 metros, 900 metros abaixo do cume. Alguns seguiram para a base, para começar o almoço, eu rápido despi a roupa transpirada e entrei na água gélida, nunca me soube tão bem um banho gelado. As pernas que tinham começado a doer, agradeceram, os pés maltratados, agradeceram mais ainda. Faltava pouco.
Vestir e arrancar para a etapa final, fácil. Fácil? Só para quem está desatento. Logo no início alertei para a dificuldade desta zona íngreme. Foi nesta subida que experimentei as maiores dificuldades. A dor nas pernas voltou inclemente. Os dois quilómetros finais pareceram duas eternidades. Os dois Valinhos da ida, transformaram-se em canions profundos, a aldeia nunca mais aparecia. Os meus sonhos iam todos para uma Cuca gelada.
Finalmente Kanjonde. Nunca um aglomerado de casas de terra e telhados de colmo, me pareceu tão convidativo. As crianças, imensas, rodearam-nos, com olhos cheios de curiosidade e barrigas cheias de fome, ou olhos cheios de fome e barrigas cheias de curiosidade.
Fomos bebendo água, que terminara. E na ausência da Cuca, foram umas cinco Cristal, portuguesas. Mais umas picanhas grelhadas, muita fruta. Tudo arrumado, tendas e lixo, não ficou nada para trás.
Havíamos chegado há duas horas e ainda faltava gente. No horizonte duas trovoadas. A chuva regressou à aldeia. O sol baixava. O frio reclamava o seu lugar. Finalmente o grupo completo. Partida de regresso a Cambambe, seis horas de viagem.
Em Cambambe às dez da noite. Calor. Chuva nem vê-la. Frio? Ná...
Foi assim que comemorámos a independência de Angola, doridos mas vivos e com vontade de trabalhar neste país. Vontade de produzir muita energia eléctrica, para que as crianças de Kanjonde não continuem a ter a escuridão por companhia todas as noites.

Deixámos livros e lápis ao Soba, para que pudesse distribuir pelas crianças, que são quase duzentas numa aldeia de trezentas almas.

Quero pedir desculpa a todas as mulheres

Quero pedir desculpas a todas as mulheres que descrevi como bonitas antes de dizer inteligentes ou corajosas Fico triste por ter falado como...