segunda-feira, 27 de maio de 2013

Há Dias Felizes


Hoje tive a confirmação confirmada. Sou um bicho-de-mato. Bicho mesmo. Há já algum tempo que faltava completar um levantamento de uns terrenos que vão ficar submersos. Fui. O pessoal estava desconfiado. Como só me viam no gabinete, pensavam que eu era um brancolas de cidade. Fomos buscar o Soba da Terra Nova. E descemos para as lavras. O caminho foi complicando. A partir de determinada altura as catanas tiveram que entrar em acção. Encontrámos um trabalhador que estava a cortar mato numa lavra de mandioca, foi connosco. Seguimos pela margem do rio, em precários equilíbrios. Depois o mato fechou até ficar intransponível. O Soba continuou rio adentro, água pela cintura, eu segui-o, os outros ficaram de boca aberta e foram dar uma grande volta. Tive que esperar quase meia hora pela sua chegada. Já me olhavam com outros olhos. Completámos o trabalho. Transpirei como um rio. Já nem sabia distinguir o molhado do transpirado. Comi massangue, parecido com o gib-gib da Mauritânia, dendém e mamão. Encontrei bissap, que aqui se chama ozélia, hibiscus sabdariffa L. Já não via isto desde a Mauritânia, gosto muito, é agradável e ainda por cima faz muito bem, baixa a pressão arterial e tem muitas vitaminas e antocianinas. Cheguei a casa quase às três da tarde. O refeitório estava fechado. Fui a casa mudar de roupa e tomar um duche. Não havia água. Fui ao escritório e acabei o desenho. Desci para jantar com um sorriso nos lábios. Há dias felizes!

domingo, 26 de maio de 2013

Sol e Sombra


Tal como temos dias luminosos a raiar o sagrado e outros nebulosos, como os dias vividos por tantos nestes dias. Tal como vemos a natureza numa explosão de vida, após umas boas chuvadas e um pouco ao lado vemos a destruição que as mesmas podem provocar, especialmente entre os mais despreparados ou desatentos. Tal como o fogo destrói e permite a regeneração após a sua passagem, de tal forma que é uma técnica utilizada há milhares de anos, para permitir a obtenção de pastos verdes em contra estação ou o cultivo agrícola. Tal como as estações se sucedem, neste nosso planeta azul, após cada subida vem uma descida e vice-versa. A vida é feita de ciclos. O nosso papel é cuidar de entender esses ciclos e tentar prolongar as subidas e amortecer as quedas.

Quem já teve oportunidade de apreender, nem que seja por um breve instante, a luz, o ar, a vastidão, a mobilidade, do deserto, compreende que mesmo em circunstâncias difíceis a vida está lá e aproveita todas as oportunidades para se desenvolver. Assim os tempos difíceis sejam aproveitados para jogar para estibordo as bugigangas que transportamos nas nossas vidas, convencidos que transportamos valores incalculáveis. É precisamente quando estamos numa encruzilhada que tomamos as decisões que moldarão presentes futuros.

Só há sombra quando há sol. É a distância que acrescenta saudade. É a doença que nos faz querer saúde. Rezamos quando deparamos com dificuldades inesperadas. Porque não aproveitar estes dias tão longos para debater, seriamente, que sociedade queremos deixar aos próximos? Em nove séculos já tivemos vários paradigmas, conquistar terra, glória, fama, riqueza. Aumentar o território, descobrir novos mundos. Evangelizar. Viver aventuras. Miscigenar o nosso sangue com todos os sangues do planeta. Manter a independência. Declarar de novo a independência. Manter territórios. Obter reconhecimento. Promover o desenvolvimento. Promover a integração europeia, num regresso a “casa”. Integrar o pelotão da frente do euro…

Durante séculos os “mais velhos” foram respeitados. Foram os garantes da tradição oral, da passagem de testemunho. Considerados sábios. Escutados e não apenas ouvidos. Criámos então uma sociedade sem espaço para os mais velhos. Conseguimos uma evolução tecnológica tão rápida, que os mais novos é que passam conhecimento aos mais velhos. E achamos normal. Embriagados pelas facilidades da tecnologia, desrespeitamos as leis da natureza. Se alguma coisa devíamos ter aprendido é qua a natureza tende sempre para um equilíbrio. Por mais que façamos, por mais que a tecnologia evolua, não podemos alterar as leis da natureza, apenas as dos homens. Como o caminho só se faz caminhando, porque não voltar a respeitar as leis da natureza e voltamos a escutar os mais velhos?

Cacimbo


O céu plúmbeo ameaça desaguar rios sobre as nossas cabeças. Finalmente conheço o cacimbo. Tanto lhe ouvi, em passados de outras eras. Tanto imaginei. Estou a experimentar por fim, a diferença do ouvido e do vivido. Manhãs frescas, agradáveis. Sol a chegar tarde, como se houvesse abusado na véspera. Chega devagarinho, para não assustar. À tarde dá um ar da sua graça e parte, tranquilo. O orvalho matinal vai mantendo alguma verdura, embora o verde, dominante desde a minha chegada, esteja a ceder. As queimadas. Pintalgam as noites, quais estrelas. Métodos mal repassados, dão maus resultados.

Semana triste e complicada. Lembra-nos que devemos estar sempre prontos para partir. Tudo deve estar sempre pronto. A nossa vez pode estar aí. Não devemos tomar nada como garantido. Bem hajam, os que já foram. Boa sorte para os que ficaram.

E no entanto, começara tão bem… Mais uma ida a Luanda, mais uma estada com amigos. Um brinde aos amigos!

domingo, 12 de maio de 2013

Casino


Segundo parece, o principal trunfo do Vitinho foi recuperar a credibilidade internacional de Portugal, o que    quer que isso seja, e permitir o regresso aos mercados e emitir dívida sem recorrer à troika. Não entendo muito de mercados, mas acho estranho que um país que destruiu a sua economia, reduziu um em cada cinco cidadãos ao estatuto de desempregado, ao qual retirou o subsídio na maioria dos casos, esteja em melhor posição que antes, quando o défice continua teimosamente na ordem dos 5% e não mostra sinais de querer baixar. Acho estranho que a nossa imprensa tão bem informada, não note que por exemplo o Ruanda faça a primeira emissão de dívida da sua história a uma taxa similar à Portuguesa… Acho estranho que não faça notar que outros países africanos que nunca tiveram acesso aos mercados, este ano tenham iniciado esse processo, com sucesso. Será que não notaram que essa poderá ser a nova bolha a rebentar? Será que é normal Portugal depois do Processo de Destruição em Curso, consiga melhores condições que antes?

Quando é que começam a fazer o trabalho de casa e percebem o que está em jogo? Vivemos uma economia de casino. O Vitinho é um simples peão. O Passos irá ser recordado como o maior incompetente que alguma vez chegou ao poder em Portugal. Infelizmente serão necessários muitos anos para ultrapassar tanta incompetência.

O que faz a esquerda portuguesa? Age como se nada se passasse e continua o seu caminho indiferente à implosão social, à destruição da sociedade. Qual D. Quixote a lutar com os moinhos de vento. Para quando um pouco de visão e solidariedade para com quem, supostamente querem proteger?

domingo, 28 de abril de 2013

Bacalhau


A vida dá muitas voltas, qual rio alteroso que desce das montanhas até à planície, onde acalma antes de finalizar a jornada no mar. Bacalhau. Eu. Cozinha. Que confusão.

Vamos por partes.

Temos 1001 receitas de bacalhau. Fiz uma receita de bacalhau, que desconheço se está nessas 1001.

Talvez seja ignorância. Mas vamos aos factos.

Primeiro coze-se o bacalhau, depois colocamos na frigideira, junto com pimento assado, tomate, cebola às rodelas, alho esmagado e margarina. Mais concentrado de tomate, colorau, piripiri e “first but not last” cerveja. A tudo isto agrega-se batata “meio-frita” às rodelas. Deixa-se “temporizar” e já está!

Críticas: “Excelente”!

Uhf!!

sábado, 27 de abril de 2013

Labirintos


As paredes brancas e ásperas pareciam convidar a coçar as costas, qual heliânfora a atrair os insectos com seu aroma de podridão. Caminhava sob um sol inclemente havia horas, sem nenhum lamento, sem nenhum queixume. Só conseguia pensar em paredes brancas e ásperas. Não que tivesse algum fetiche por elas, ou assim o cria, pelo menos. Não se via vivalma. O silêncio opressivo sobressaía por entre pequenos montes. Não entendia como tinha chegado ali. Não conseguia organizar os pensamentos, paredes brancas e ásperas, eram tudo o que formulava e continuava a caminhar. A sombra tinha-lhe sido roubada, mas nem isso parecia causar-lhe mossa. Visto de alheios olhares, não deixava de ser um quadro insólito, um caminhante, sob um sol inclemente, apenas focado em paredes brancas e ásperas, que não fazia sombra sob os seus pés, que se moviam incansavelmente. Diziam que não era digno de possuir nada, daí terem ficado com a sua sombra. Vivia uma não existência, não lhe era permitido parar em solo de outrem. Por isso caminhava sempre. Outros tempos experimentara, no que parecia um sonho impossível, em que se julgara dono do destino, tal a confiança que emanava. Fora feliz. Viajara imenso, talvez por isso a caminhada incessante. Gostara de observar os horizontes, que mudavam à medida que viajava, agora ao caminhar mudavam menos que antes, mas sempre mudavam. Era a única coisa que mudava na sua vida despojada, o horizonte, não que reparasse nisso, pois para além de caminhar sob um sol inclemente, apenas pensava em paredes brancas e ásperas. Poderá dizer-se que a responsabilidade tinha sido completamente sua. Dera tudo como garantido. Permitira que os abutres e as hienas, não só chegassem ao cume, como aí se mantivessem o tempo suficiente para sorrateiramente, tudo lhe surripiarem, no início até parecia que fazia sentido. Quando tomou consciência do que se passava à sua volta era tarde, até a sombra lhe tomaram.

Se podia ter sido de outro modo? Claro. Mesmo uma recta tem dois sentidos. A alternativa é um imperativo. Nada mais importante que usar o que temos de mais importante, a nossa capacidade cognitiva, para formular as questões e decidir o rumo a seguir. Não tinha sido assim. Acreditara que o empobrecimento até fazia sentido, aquele discurso, naquela voz de barítono, sugou-lhe a vontade. Deixou-se ir. Foi despindo os anseios, as esperanças e até a própria sombra. Tornara-se um caminhante incansável, sob um sol inclemente, focado em paredes brancas e ásperas.

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Barra do Dande


Chegou finalmente a hora da partida. O dia amanheceu chuvoso. E veio a dúvida, vamos ou não. Claro que fomos. E ainda bem. A distância em termos angolanos não é grande, apenas 230 km. Três horas de viajem. As estradas carregam as marcas da estação das chuvas. Tem buraco que engole carro. O terreno segue em suaves ondulados. Capim de três metros, verde brilhante. Quase engole a estrada. Pedimos direcção à BET (Brigada Especial de Trânsito) que solicitamente nos indicou caminho. Os embondeiros começaram a rarear. Luanda lá estava imensa. Cidade sem fim. Descemos para Cacuaco, depois a Barra do Bengo. Acabaram as árvores. Depois só palmeiras e erva seca e rasteira. Como tudo muda em tão poucos quilómetros. Finalmente a Barra do Dande. A animação ia alta. Entrámos na povoação. Não podia ser assim tão mau e ter umas seis ou sete esplanadas, grandes. Algo se passava ali. Fomos fazer reconhecimento. Atravessámos a ponte, prá outra margem. Praia linda palmeiras até 10 metros da água. Baía linda. Ondas de 30 cm. Água quentinha. O dia prometia. Voltámos. Muito peixe a secar, como na Nazaré. Fomos ao morro da administração. Horizonte sem fim. O Atlântico sempre lá. Mas o que primeiramente ali nos levara, fora a promessa do peixe mais fresco que já viramos. Baixámos à povoação. Abancámos na esplanada que mais nos encheu os olhos, que embora não comam, sempre comandam alguma coisa. Começámos com umas gambas, assim tipo camarão tigre sem listas, grelhadas. Atacámos a garoupa, que festim para as papilas gustativas, que tão maltratadas têm sido. Olhámos para umas lagostas lindas de morrer. Passámos a uns linguados, que para caber na travessa tiveram de ser cortados ao meio. Terminámos com uns chocos divinais. Acompanhamentos à altura, mandioca, banana, feijão de dendém e farinha. A Sagres e a Cuca fizeram as honras às cervejas e o Casal Garcia matou a sede a quem o quis beber. Como é hábito nestas terras, um scotch com muito gelo ajudou a simultaneamente baixar e subir a temperatura. O restaurante encheu mais de uma vez. Os clientes quase todos portugueses. O preço, uma agradável surpresa. A anfitriã simpatiquíssima. O quizomba animou os espíritos. O dia afinal terminou radioso. Há caminhos que têm de ser percorridos. A Barra do Dande (ainda) não é um luxo, mas a frescura do peixe que se lá come é!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Sinto-me incompleto


Incompleto

 

 

Sinto-me incompleto.

Perguntareis por certo por que me assomou tal sentimento.

Que ideia será essa de se sentir incompleto?

Perguntais bem. Não é usual tal sentimento dominar alguém, a ponto de se destacar, a ponto de merecer honras de título.

Mas como poderei expressar o que me vai na alma, se de facto incompleto é como me sinto.

Li algures que “Podes ir longe só com as pernas, mas se usares a cabeça podes ir mais longe”. Concordo em absoluto.

Quando vemos a civilização que a europa construiu nestes últimos séculos, prestes a ruir quando estava tão próxima de conseguir o que apenas tinha sido imaginado. Quando o sistema democrático está a pontos de ser implementado em quase todo o planeta, por pressão europeia, vemos que em apenas duas ou três gerações a degeneração dos líderes políticos atingiu um grau inimaginável. Quando atingimos uma sociedade “quase” laica, após séculos de jugo religioso, vemos meio mundo prestes a iniciar uma guerra religiosa. Quando a tecnologia chega a quase todo o mundo, permitindo a realização de tarefas quase impossíveis há poucos anos, meio mundo deixa de ter acesso a ela por ter perdido o emprego. Quando os bancos, após quarenta anos a subornar os políticos, conseguem a “desregulamentação” dos mercados, de um modo quase absoluto, como sempre desejaram, destruíram a economia como na grande depressão. Quando os jovens têm acesso à educação, não conseguem emprego. Quando conseguem, ganham o salário mínimo. Quando temos finalmente acesso à saúde, os hospitais começam a fechar.

“Que vida é esta, amigo?”

Só me faz lembrar que estamos a cozinhar o jantar que sempre sonhámos e quando já cheira, a mesa está posta, a conversa está maravilhosa, ouvimos alguém dizer “acabou o gás!”

Sinto-me incompleto.

Ou será Anacleto?

Talvez analfabeto…

É mesmo incompleto!

Quando sabemos que os offshores vampirizam por completo a economia e não os fechamos…

Quando os bancos ganham mais a especular que a financiar a economia e os deixamos continuar…

Quando os políticos não são responsabilizados pelo resultado das suas ações…

Quando temos um País à míngua e deixamos nomear milhares de “Boys”…

“Quando Vemos, Ouvimos e Lemos, não podemos ignorar!”

E é aqui que queria chegar!

Quando tantos têm acesso a tanto e deixamos tudo ir pelo cano abaixo, algo não bate certo. Só pode ser porque embora tenhamos acesso a tanto, não usamos a cabeça para pensar. Não é à toa que a moda é ouvir os comentadores. Nunca houve tantos comentadores. Ele é comentadores na TVI, na SIC, na RTP, nos jornais, nas rádios. Pagos a peso de ouro. Para nos dizerem aquilo que queremos ouvir. Ou aquilo que pensamos que queremos ouvir. Ou aquilo que querem que pensemos que queremos ouvir.

Porque sempre as conversas de escárnio e mal dizer fizeram sucesso no nosso retângulo, ouvimos os comentadores zurzirem em todos que contam e nós batemos palmas.

Os comentadores têm tanto mais audiência quanto mais pauladas afinfarem. Quanto maiores as audiências mais eles ganham. Mais palmas nós batemos.

 

Sinto-me incompleto!

É paradoxal como o sentimento de segurança corrompe as pessoas. Enquanto temos algo a perder não damos um passo. Depois de perder tudo vamos à guerra. Quando vivemos em ditadura arriscamos a vida pela democracia, quando vivemos em democracia, preferimos a novela e o futebol.

Se tivéssemos aprendido algo com a natureza, seria que nunca devemos baixar a guarda, nunca podemos contar com nada garantido.

“Inquietação, Inquietação”

Ficámos moles, só queremos jogar, somos crianças velhas. Ou velhos crianças. Como quiserem.

Sinto-me incompleto!

terça-feira, 12 de março de 2013

Luanda


O que se pode dizer quando nos fogem as palavras? Quando vagueamos por mares tantas vezes navegados. Quando temos amigos que nos recebem de braços abertos. Quando nos sentimos bem vindos. Quando vemos conterrâneos a oito horas de vôo de casa.



Vi Luanda em toda a sua espectacular miséria. O contraste atinge-nos a 190km/h (não é Mário?). O futuro mora aqui. A velocidade da mudança só a pode valorizar quem a vive(u).



Andei em Belas e Luanda Sul, mas também na Coringa, Prenda, Praia Amélia, junto à nova Assembleia ou na ilha de Luanda. Em novas avenidas largas, ladeadas por prédios a reluzir. Em caminhos de terra, com esgoto a céu aberto e casas de terra. Em praias cobertas de lixo. Em praias espectaculares, com nadador salvador e vigias como nos “states”. Entrei em mercados de rua onde o lixo rivalizava com os produtos em venda, em hipers que nada ficam a dever aos melhores.



O Quim e o Bruno apanharam-me na ilha, pagaram um copo no “Jango Veleiro”, comecei na Alta. Matei as saudades do peixe com uns belos carapaus de quilo. Deixei a EKA por uns dias e fui aos treinos de CUCA. Fui ao Mussulo de barco, que praia... Especialmente quando por terras lusas o frio é rei. Aí empreteci num único dia. Claro que estou a pagá-las, pareço uma serpente na época da muda...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Palavras


Voltou diferente. Ninguém percebia isso. Como explicar um horizonte sem fim. Decerto lhe desconsiderariam se lhes falasse do inebriante cheiro depois da chuvada. Seguramente de louco não passaria se tentasse colocar em palavras a sensação de tranquilidade que a vista daquele rio lhe transmitia, como se a casa retornasse. Isso era o mais estranho, como se pode viajar meio mundo e sentir que se está de volta a casa, como o filho pródigo. A vontade de gritar aos quatro ventos que a sua alma estava em casa, a milhares de quilómetros. O reconhecer aquilo que nunca se viu, como um bebé que dá os primeiros passos, dava-lhe vontade de rir. Como explicar o prazer de reconhecer um cajueiro à primeira vista sem qualquer referência anterior. As palavras são a maior invenção do homem, mas ainda assim vivências inexplicáveis não são fáceis de contar por palavras. Talvez o problema não seja destas, mas dos ouvidos que (des)ouvem, numa época que perdemos o contacto com o que nos rodeia. Com toda a certeza o maior erro do homem é a falta de respeito pela natureza, que se traduz nas agressões que diariamente lhe infligimos. Curiosamente essa mesma falta de respeito inibe-nos de usufruir do que está à nossa volta. Um mea culpa e um regresso à vida sustentável são desejáveis e quanto mais cedo chegarem melhor.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cachoeiras


A noite passou urgente. O céu clareou enxuto de nuvens prometendo calorias. Pela primeira vez ia sair. Conhecer chão. O grupo cumpriu horário. Asfalto negro esperava-nos. Verdes horizontes prometiam vistas. Breve passámos Kiamanfulo e a Terra Nova. O desconhecido abria as portas. Munenga convidava um ida a Calulo, outro dia seria, desta vez o destino era outro. Poucas Aldeias, esparsas. Capim bué alto. Depois das montanhosas terras de beira-kwanza, chão fértil alberga modernas fazendas agrícolas. Próximo destino a Quibala. Viragem à direita direção Gabela. Cada vez mais aldeias, maiores, mais juntas, fazendas tipo “Dallas”. Serra da Gabela, tudo cultivado. Bonito chão vermelho. Muito milho. Um arbusto belo chama a atenção. Vendas, beirando a estrada. Descemos para as salinas. A cor muda. Ocre. Cactos. Espinhosas. Cachoeiras. Ruidosas. Uma ponte onde as cinco quinas ainda teimam. O tramo central partiu faz tempo. Foi a loucura da guerra. Água. Muita água. Lança-se intrépida cachoeira abaixo. O vapor refresca as quenturas do sol. Um verdejante palmeiral bordeja tranquilo rio no remanso do percurso final atá ao mar oceano. Um belo restaurante, prometendo frescuras. Vistas deslumbrantes. Passamos primeiro a pé, na ponte esventrada, depois de carro na vizinha nova. Placa antiga, “Parque das Cachoeiras”, um ancião pede para assinarmos o livro das visitas, onde podemos testemunhar nomes familiares. Nomes estranhos. Nomes prováveis. Nomes exóticos. Risos. Frondosas árvores continuam a testemunhar a alegria das crianças a banhar-se em quentes águas. Tranquilas águas, depois do inebriante descenso. Dezenas de indianos. Não deixou de nos surpreender. No regresso à verdejante e fresca Serra da Gabela, tempo de provar in-situ o melhor ananás de Angola, segundo dizem. Não conheço outro, se não é o melhor, não interessa, superou as expectativas. Papaias, abacates, maracujás, fruta pinha, cana de açúcar. Além de bananas diversas, batata doce e tantas outras cores. Seguimos, voltámos a ver o arbusto desconhecido. Fazenda espectacular. Casario de sonho. Instituto Nacional do Café. O mistério resolveu-se. O tal arbusto é o cafezeiro. Na Quibala, cometi um sacrilégio, entrei na Casa do Benfica. É verdade. Bebi lá uma Sagres e comi um prego no pão. Não sou perfeito. Eu sei. Tem um mapa desenhado na parede, desde Luanda a Benguela, maravilha, os nomes das cidades, Nova Lisboa, Novo Redondo...

Quero pedir desculpa a todas as mulheres

Quero pedir desculpas a todas as mulheres que descrevi como bonitas antes de dizer inteligentes ou corajosas Fico triste por ter falado como...