sábado, 31 de março de 2012

Mali

Nos primeiros dias de 2011 saí do Mali. Por um lado a proposta de trabalho vinda de Portugal, representava uma oportunidade única de valorização profissional. Até então nunca tinha trabalhado numa barragem. O desafio soou aliciante, irresistível até. Por outro lado o Mali impressionou-me bastante. Proporcionou-me o contacto com vastas e ricas civilizações, gentes e cidades tão ricas, que nunca as conseguirei apagar da memória. Estudei um pouco da história oeste-africana, soube de riquezas passadas fabulosas. Conheci gentes unidas por laços, que agora sei o frágeis que eram, de amizade e companheirismo que me tocaram.

No entanto, havia algo no ar. Era, para mim, palpável que a história maliana não estava escrita, mas em curso. Aleguei junto dos companheiros de situação que um véu me tolhia os estares. Informei os responsáveis em Lisboa que não era correto enviar gente para tais bandas sem, previamente lhes prestar juízos sobre o que os esperava.

Quando apenas um ano passado, os acontecimentos ultrapassaram os meus piores receios. A guerra civil está aí para durar. Como todas não terá vencedores, apenas perdedores. A juntar a isso, um golpe de estado.

O povo que tão mal passava, pior passará nos tempos mais próximos. Tenho o coração partido. Tenho amigos dos dois lados do conflito. No entanto nada posso fazer. Sei que um país pobre com mais de cinquenta povos diferentes, com história de conflitos passados, necessita de grandes líderes, que ponham o coletivo à frente do interesse pessoal.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Elites

Até ao seculo XII, Al-Usbuna era uma das cidades mais populosas e cosmopolitas da europa. Já tinha cerca de cem mil habitantes. O comércio, bastante desenvolvido, beneficiava duma localização geográfica ímpar e de um porto natural sem rival. A coabitação entre os três povos do livro – cristãos, judeus e muçulmanos, não sendo perfeita, permitia a liberdade de culto e de vida a todos eles. A nível cultural beneficiava da proximidade a Córdova e Sevilha, por esses tempos os guardiães da tradição greco-romana e muçulmana.

Com o episódio exemplar da tomada da cidade pelos cristãos ficou dado o mote para o futuro do recém-criado reino. Os cruzados em trânsito para Jerusalém obtiveram o direito de saquear a cidade e os seus habitantes. O nosso jovem-rei Afonso, o primeiro dos borgonhas a governar o nóvel reino, analfabeto e completamente subjugado aos interesses da igreja de Roma, só entraria na cidade após uma semana de saque por parte dos “nobres” cruzados.

Dinis, o sexto da linhagem a tomar conta dos destinos do “al-garb” europeu, foi no entanto o primeiro dentre estes a não precisar de assinar de cruz, porquanto era mestre na arte de manejar a pluma, que era assim que se escrevia nesses tempos. Claro ser culto motivou desentendimentos com os interesses da santa sé em terras lusas.

Foi necessário esperar mais um século para termos então outro rei que se distinguia dos pares pelas ideias e não apenas pela força bruta, o mestre de Avis, D. João, o primeiro. E este deve os ensinamentos que obteve, não à educação real, mas a ter sido preparado para dirigir a ordem de Avis e ter sido rei por mérito e não apenas por linhagem. Afortunadamente veio a casar com D. Filipa de Lencastre, uma inglesa que só aceitou desposar um “selvagem” de um país longínquo, trazendo na bagagem uma vasta biblioteca, tutores para os rebentos futuros e a garantia que poderia educar a descendência. Os filhos deste casal atingiram tal notoriedade e foram de tal modo influentes na vida lusa que beneficiaram de uma expressão só a eles reconhecida – Ínclita geração.

Chegados ao vigésimo século d.C., quais fidalgos falidos com ares de importância. Ao arrepio das correntes mais vanguardistas, mantínhamos 85% de analfabetos. Uma subserviência aos mais retrógrados pensamentos católicos. Uma inquisição só formalmente abolida, porquanto qualquer liberdade religiosa era fortemente reprimida.

A revolução republicana, se formalmente apoiada num desejo de livrar o país de elites decrépitas, descambou numa troca simples de governantes. Apenas em 1956 foi instituída a obrigatoriedade da escolaridade até ao quarto ano e apenas para os varões. Só em 60 as mulheres beneficiaram desta situação.

As nossas elites beneficiaram de monopólios durante séculos. Os tiques absolutistas ainda hoje se manifestam, governantes que não aceitam críticas, clérigos pouco dados ao diálogo e a assumir pecados cometidos ao serviço duma instituição que supostamente serviria para venerar a Deus, industriais viciados em trabalho escravo, gestores com a quarta classe, sem dinheiro para retribuir o esforço dos seus assalariados e com bolsos sem fundo para comprar políticos de pacotilha.

Deixámos de ter a ambição de mudar o mundo, para simplesmente querer ter um telemóvel de última geração. Isto aconteceu quando pela primeira vez na nossa história tivemos acesso, como um todo, a instrução. Quando a maioria dos nossos jovens termina o secundário. Quando temos uma quantidade de doutores, engenheiros e arquitetos inusitada. Quando pela primeira vez na história temos um povo preparado para tomar o destino nas mãos, esperamos pelas elites mais uma vez. Infelizmente as elites portuguesas não são uma ínclita geração. Não estão à altura do desafio. Assim sendo, é talvez chegada a altura de deixarmos os telemóveis e a televisão, tomarmos o destino nas mãos, como D. João, o primeiro, o mestre de Avis, que não era suposto ser rei. É que temos tudo, consciência, qualificações, garra, vontade de trabalhar, seria uma pena desperdiçar tudo isto em elites de papel, iguais às que nos (des)governaram durante nove séculos.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Sou Grego, com muito Orgulho!

Vivo num País onde já se não nasce. Onde o Presidente da República, precisa de tradutor para que compreendamos o raciocínio. Vivo num País febril com as taxas moderadoras. Ele é taxas moderadoras para a saúde. Ele é taxas moderadoras para as estradas. Ele é taxas moderadoras para a educação. Vivo num País em que os governantes se desdobram em discursos a anunciar a boa-nova, a recuperação está aí ao virar da esquina. Esquina essa que ninguém consegue descortinar. Vivo num País de malabaristas de palavras, que se candidatam em atos eleitorais defendendo exatamente o oposto daquilo que alguma vez porão em prática, caso sejam eleitos. Vivo num País que desistiu de ter futuro. Por inação, deixámos de nos reproduzir, por ação, impedindo os poucos que têm visto a luz por estas bandas de participarem em atividades laborais, por omissão, impedindo os idosos de terem uma morte digna. Desde o início deste ano da desgraça de 2012, já foram encontrados 12 idosos mortos nas suas casas, alguns mais de um mês depois da alma abandonar a carne.

Sou Grego, com muito orgulho! Ninguém quer compreender que somos indesejados nesta Europa, gorda, anafada, ensimesmada. Ninguém admite que vamos ser empurrados para fora da mesa, para longe da vista. Vamos ser os “velhos” portugueses que estamos a empurrar para uma morte solitária. Os dez-por-cento de portugueses que irão ser privados de televisão,com a chegada da tdt, vão ser os idosos. Sem poder de compra para poderem ter televisão paga. Achamos isso normal. Ouçam rádio. Não podem pagar aos bombeiros pelo transporte de ambulância, chamem um táxi. Abandonados!

O pior que pode acontecer a alguém não é ser posto à margem, é voluntariamente ir fazendo tudo o que nos exigem, sabendo que a cada exigência que respondemos, outra e outra se seguirão. Aqui a questão não é cumprir, aqui a questão é ser-se desejado. Claramente não o somos. O que podemos fazer é manter o nosso orgulho e mostrarmos solidariedade com o povo grego. Porque estamos no mesmo barco. A diferença, já são só seis meses. Pelo menos não ficaremos sós, quando chegar a nossa vez. Porque não consigo imaginar nada pior que morrer só e abandonado. Ninguém dar pela nossa falta, senão apenas um mês depois da última caminhada. É incomensuravelmente preferível dar as mãos e fazer o caminho em conjunto.

Outros se seguirão, se quiserem aproveitam o exemplo, senão suportarão um fardo maior sobre os então tristes e cansados ombros.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Portagens

Países sem sistema de portagem

Na actualidade são poucos os países completamente isentos de portagens. Exemplo de países totalmente livres de portagens são a Finlândia, Alemanha, Suécia, Bélgica e Holanda (embora possam ter pontualmente uma ou duas portagens, por exemplo em pontes ou túneis). Existem também países com uma quantidade muito baixa de portagens, por exemplo o Reino Unido e o Canadá, seguidos da Dinamarca,Austrália, Noruega, Turquia.

De um modo geral a ausência de portagens é compensada com maior carga fiscal de impostos.

Os países do sul e leste da Europa, a par do Chile e do Japão são dos países com maior número de portagens por número total de vias principais.

Segundo alguns críticos, as portagens são sistemas muito ineficientes porque:

§ Obrigam ao abrandamento de marcha e paragem de veículos, as portagens manuais representam um desperdício de tempo e aumentam o custo operacional dos veículos

§ As despesas com funcionários, máquinas etc absorvem até um terço das compensações financeiras pagas pelos utentes, enquanto que o furto dessas compensações é relativamente fácil.

§ Existindo vias alternativas sem portagem estas poderão tornar-se mais congestionadas, aumentando a despesa pública na reparação dessas vias e a diminuindo a eficiência de circulação.

Além destas críticas, existem críticas de fundo ao uso excessivo de portagens, como a o direito à liberdade de circulação (não havendo alternativas não há essa liberdade) e a penalização das indústrias transportadoras de mercadorias e de passageiros, que representam um sector importante para a economia.

In Wikipedia

Como vemos acima existem poucos países completamente isentos de portagens, e são todos países atrasados, maus exemplos portanto. Finlândia, Alemanha, Suécia, Bélgica e Holanda.

Podemos ver também um argumento contra as ditas, as vias alternativas tornam-se vias mais congestionadas, aumentando a despesa pública na reparação dessas vias e diminuindo a eficiência de circulação.

Claro que isto para os nossos “grandes líderes” não conta nada. De qualquer modo já passaram a batata quente das vias “alternativas” para as câmaras...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Mitos e Realidades

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo
.

Fernando Pessoa in Ulisses

Mito - narrativa fantástica que pretende explicar a origem e causa das coisas

Realidades – Há atualmente correntes que defendem a teoria da existência de universos paralelos, onde existem realidades ligeiramente diferentes, mas diferentes o suficiente para alterar a história.

Mito – O governo deste retângulo apregoa o princípio do utilizador - pagador, como panaceia para todos os males que enfermam as contas públicas.

Realidade - Como princípio até estou de acordo. O diabo dos princípios é a aplicação prática, a casos concretos.

Mito - As famigeradas Scut’s devem ser pagas por quem as utiliza. Porque deve um cidadão deste país, que até não tem automóvel, pagar com os seus impostos uma infra-estrutura que não utliliza?

Dito assim até não parece estranho, ou será que falta aqui algum prato nesta balança?

Realidade 1 – Com a introdução de portagens os utilizadores destas estradas pagarão o custo das mesmas. Logo o “tal” cidadão desautomobilizado não pagará algo que não utilizará. Certo? Errado. O valor das portagens não só não paga a despesa das estradas como aumentou o custo das mesmas. Confuso?

Realidade 2 – As Scut’s têm perfil de Autoestrada. Certo? Errado. As Scut’s Têm de fato duas faixas para cada lado, mas a velocidade base utilizada para o cálculo dos projetos é inferior ao das Autoestradas “De Fato” da Brisa.

Realidade 3 – As Scut’s têm alternativas. Certo? Errado. As Scut’s foram construídas para ser “Sem Custos” logo não houve o cuidado de preservar as estradas pré-existentes, em grande parte do traçado foram construídas “Por Cima” das anteriores. E porque não houve protestos aquando da construção de estradas sobre estradas? Mesmo os ecologistas acharam correto tal desiderato, pois deste modo o impacto foi bastante minorado e daí não adviria mal aos cidadãos.

Realidade 4 – Pelo menos o dinheiro das portagens servirá para amortizar o montante de impostos a pagar por todos nós. Certo? Errado. O volume de tráfego nestas estradas, nomeadamente na A23, nunca gerará receitas para pagar o valor dos investimentos.

Realidade 5 – Alguém ganhou algo com toda esta história. Certo? Certo. Os fabricantes dos pórticos. Dos dispositivos eletrónicos de matrícula. Os concessionários das Scut’s.

Os concessionários das Scut’s?

Sim. Porque antes da introdução de portagens recebiam um determinado valor por cada viatura utilizadora. Com a crise instalada seria previsível uma diminuição do tráfego. Logo o risco para os concessionários estava a chegar ao vermelho. Com esta solução “milagrosa” o risco passou TODO para o estado. Onde é que já vi isto?

Mas os governantes são TODOS atrasados mentais. Certo? Errado, mais uma vez. Nem todos. Alguns, ANTES de serem do governo trabalhavam e alguns desses até estavam fora da esfera pública. DEPOIS de saírem do governo TODOS eles são considerados excelentes gestores, tendo por isso à sua espera lugares que nem nos melhores sonhos tinham cabimento.

Realidade 5 – Se os autarcas das zonas de influência das Ex-Scut’s são todos contra a introdução de portagens porque não apresentaram a demissão em bloco? Deste modo estariam ao lado dos munícipes. Certo? Certo. Mas largar um tacho é algo por definição impossível. Caso estivessem na política para defender princípios, regiões, populações, aí teríamos visto uma demissão em bloco.

Realidade Portuguesa – Para que diabo serviu então a introdução de portagens nas famigeradas Scut?

Simplesmente como taxa moderadora. Tal como na saúde as taxas moderadoras irão acrescentar cerca de 100 milhões de euros aos depauperados cofres do estado, quando o orçamento da saúde é de mais de 3.000 milhões e sempre acima dos 100 milhões de derrapagem, servirão para afastar o mais possível os ricos (leia-se detentores de rendimentos superiores a 600 euros mensais) dos serviços de saúde. Nas Scut’s a pagar, o único efeito será o de taxa moderadora. Esse efeito é bem visível, infelizmente, no volume de tráfego que circula diariamente nas mesmas. Digo infelizmente pois assim sobra muito mais para eu pagar com os meus impostos e deste modo o princípio do utilizador – pagador tão caro aos nossos nóveis liberais governantes, não sai do papel...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Pesadelo

Acordei sobressaltado. Inquieto. Olhei o relógio. Duas e meia. Intrigado com os pensamentos que mesmo depois de acordado pareciam lapas. Não era possível. Ninguém desce tão baixo. Pus-me a matutar no que me impedia o repouso.

“O Eng. Coiso esperava inquieto que o futuro Primeiro o recebesse. Andava para trás e para a frente a proferir palavras irreproduzíveis. Impaciente. Finalmente foi chamado. Não perdeu tempo com os preliminares. Direto. Preciso. Conciso. Isto não dá. Vocês meteram-nos nesta alhada. Temos que rever isto. Do que está a falar? Questionou o futuro Primeiro. As porcarias das Scut’s estão-nos a lixar a vida, vociferou. Calma. Calma. Respondeu em tom apaziguador. Explique lá tudo. Que as rendas não cobrem os encargos. Que os tugas são uns tesos e não andam de carro. Que agora até querem acabar com os camiões nas estradas e fazer linhas de comboio para levar as mercadorias para a Europa, onde é que já se viu. Tem alguma ideia concreta? Retorquiu o futuro. Temos que arranjar um modo de rever os contratos. Não podemos correr tantos riscos. Os bancos só emprestam dinheiro às empresas públicas. O que tem em mente? E se explicássemos que os Portugueses são todos iguais. Uns não podem utilizar as auto-estradas sem pagar e os que nada têm, nem sequer um carrito, é que as pagam com os seus impostos. O célebre princípio do utilizador - pagador. Eu sempre fui a favor desse princípio. Desde pequenino. É da mais elementar justiça. Os pobres é que saem sempre prejudicados. Este governo é que cria injustiças. O que é verdadeiramente justo é cada um pagar os serviços que utiliza. Calma, calma. Esta conversa nunca existiu. Até porque eu sou do partido do governo e parecia mal, saber-se lá fora. Claro. É evidente.”

Pensei, Chiça nem a dormir me largam. É claro que isto só pode ser um pesadelo.

“O Eng. Coiso passou um cheque para ajudar na campanha eleitoral, que se avizinhava. Os jornais do dia seguinte titulavam – PORTAGENS NAS SCUT – mais abaixo lia-se, menos estado na sociedade e ainda princípio utilizador – pagador continuava com equidade fiscal...”

Pensei para comigo, apenas e só – estas coisas só acontecem nos países corruptos de África, ainda bem que estamos na Europa!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O clic do interruptor

Criadores de lagos, incansáveis lançadores de concreto, hora após hora, dias sem fim.

Modeladores de horizontes, humanizam duros rochedos.

Paredões sustêm quilómetros de água.

Quantos cálculos, tantas discussões…

A vontade do bicho homem tudo verga, molda, constrói.

Quando o homem quer, faz acontecer.

Se uma vontade é coletiva, nada se lhe pode opor.

Mas quando a divisão impera, a indecisão lidera, o comodismo reina, o fracasso é inevitável.

A prosperidade traz a ilusão,

os amanhãs que cantam.

A vontade amolece.

Vai-se a tesão.

Nada acontece.

As mãos nada plantam.

O espírito enfraquece.

Tudo foi em vão.

Nada apetece.

Estamos naquelas alturas da existência, em que das duas uma, ou se esboroa o maior império, ou acontece uma reviravolta épica. A diferença entre a escuridão e a luz, é o clic do interruptor…

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Último Segredo

Quando alguém abandona a sua zona de conforto e afronta, qual David, o gigante Golias, que responde por Cristianismo. Quando um autor de sucesso “esquece” o politicamente correto. Quando uma figura pública diz o que pensa, independentemente das ondas de choque que tal provoque. É caso para tirar o chapéu.

Eu tiro o meu chapéu ao José Rodrigues dos Santos.

Com o seu recente romance expõe a fragilidade da “construção” em que toda a Europa baseou a sua civilização do derradeiro par de milénios.

Independentemente da narrativa ser uma mera “imaginação diabólica” ou algo mais sério, expõe cruamente fragilidades, falsificações, contradições, impossibilidades. Não se esconde atrás de nada, é duro como apenas a razão permite.

Uma instituição que abrange mil milhões de crentes, para se expor deste modo, para permitir tais certezas, tem que basear as suas fundações em pés-de-barro. Não é possível contra-argumentar perante tais acusações, apenas com a (má) fé.

Não sei se para o bem se para o mal, creio que este continente está definitivamente a perder protagonismo, a nível populacional já representa apenas cerca de 10% das almas. A economia está de rastos, de mão estendida a pedir aos chineses ajuda, para evitar o inevitável. A religião que comandou durante séculos (quase) tudo aqui e além, esboroa-se qual castelo de cartas. O sistema económico que vingou após tantas guerras, entrou em autofagia. O sistema político que nos derradeiros vinte anos surgiu como o baluarte dos justos, dá sinais de esgotamento inexorável.

A vida é feita de ciclos. Tudo o que sobe tem forçosamente que descer. Infelizmente no momento em que, pela primeira vez na história, tantos tiveram acesso a tanto, estamos no cimo de uma cascata, sem hipóteses de voltar a trás, donde só podemos, não descer suavemente, senão cair abrutamente!

sábado, 1 de outubro de 2011

Um Soluço

A aposta foi ganha quando um dos residentes num dos três lares da Santa Casa da Misericórdia da Golegã se levantou e em voz trémula e decidida disse “Só Vos desejo que um dia. Quando forem da nossa idade, tenham alguém, a fazer por vocês o que estão a fazer por nós.”

Dia primeiro de Outubro, Dia Internacional da Música, um bando de miúdos, armado ao pingarelho, quais saltimbancos de outras eras, irrompe pelo lar adentro com uma energia, uma amizade e uma genuína vontade de proporcionar àqueles, que no ocaso da vida ainda soltaram uma lágrima marota, sensações julgadas perdidas.

“Ora estamos aqui no jardim infantil, não é?!” Resposta clara e audível, “Não!”, por momentos rostos voltaram a iluminar-se, voltaram a sentir-se importantes.

Quando uma dezena de miúdos decide que a melhor forma de passar uma tarde esplendorosa de sábado, é a mimar, com música, malabarismos, palhaçadas e palavras doces, uma plateia constituída por seniores, alguns já com autonomia bastante restrita, desconhecidos. E isto numa época em que tantos denominaram os jovens de geração “rasca”...

São os jovens quem desmente tal acusação. Provando que se as abelhas picam, também produzem mel. Talvez sejamos nós que não sabemos colher esse néctar...

No final, ainda ouvi os miúdos comentar “Assim vale a pena” ou “podem contar comigo”.

Por um dia não ouvi falar de mercados, ratings, dívidas, recessões.

A solidariedade ainda vai ter um papel importante, como já teve.

Este tempo é um soluço. Cabe-nos parar com os soluços.

Quando era miúdo dizia-se “ soluço vai, soluço vem, m**** p’ra quem o tem...

domingo, 11 de setembro de 2011

Não tem que ser assim...

Hoje dia 11 de Setembro de 2012, impõe-se um balanço do que se passou neste último ano.
Cerca de metade da população portuguesa sobrevive graças à sopa dos pobres, a igreja católica tem tido ação destacada nesta espinhosa missão. Já se verificaram três aparições de Nossa Senhora, num ano marcado pelas dificuldades extremas e em que só uma forte fé separa os cinco milhões de pobres portugueses do abismo do desespero. Os anúncios de novos impostos sucedem-se. A economia está em queda vertiginosa. A contração do PIB atingiu uns inacreditáveis 10%, atirando o malfadado défice para cerca de 9%. A cada anúncio de aumento de impostos segue-se o encerramento de milhares de empresas. Os cinco milhões de “remediados”, os que ainda não engrossam as filas da caridade, já só compram em lojas chinesas, o magro pecúlio não permite mais...
A chanceler Merkel, defensora acérrima dos eurobonds, voltou a tentar persuadir os parceiros europeus a aceitarem os títulos de dívida europeia, mas os governantes europeus continuam a lançar pacotes de austeridade, já se chegou ao cúmulo de dois terem sido lançados no mesmo dia, para ver se os mercados reagiam...
A pressão sobre Passos Coelho para que este dê inicio aos trabalhos do TGV intensifica-se, pois a fábrica alemã que iria fornecer os comboios e os equipamentos para a linha, está sem encomendas e começou a despedir funcionários.
A economia alemã, de tanto sucesso na última década baseia-se na exportação essencialmente para a Europa. Com todo o continente a pão e água, a comprar apenas aos chineses, as encomendas de carros caíram para os níveis mais baixos de que há memória...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Curiosos tempos

Curiosos tempos. As más notícias pioram a cada dia. O que era mau ontem, já não é assim tão mau hoje. Amanhã haverá notícias piores.

Nestas terras atrás-dos-montes são horas de festa. Os emigrantes estão de regresso para mais um mês de nostalgia. As festas sucedem-se. As temperaturas são tropicais. A cerveja corre em torrentes por gargantas ressequidas. Atordoando cérebros de esperança perdida. Dança-se num rodopio, de pés, de sonhos. Nada é o que parece. Tempos de vacas magras, é que dizem os entendidos, nos seus comentários pagos principescamente, em televisões falidas, num país falido, num continente à deriva, qual jangada de pedra. O Saramago enganou-se, não é a península ibérica que está à deriva, é todo o continente.

É curioso ver como os liberais estão prestes a saborear a mais amargadas vitórias. No poder em quase toda a Europa. Falida. A cortar em toda a linha. A escarnecer na história da Europa dos últimos 65 anos. Vitória atrás de vitória até à derrota final…

Curiosos tempos. De mudança. Dolorosos. Difíceis.

Quero pedir desculpa a todas as mulheres

Quero pedir desculpas a todas as mulheres que descrevi como bonitas antes de dizer inteligentes ou corajosas Fico triste por ter falado como...