Estes escritos representam acima de tudo estados de espirito. Dia a dia de um português em Portugal
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Ramadão
3 de Outubro de 2008, 6ª Feira. Após mês e meio estou de volta. Durante este tempo voltei a casa, para ir com o Xavier às termas. Soube bem esta ida a Portugal. Voltei mais calmo. Cheguei durante o Ramadão. Terminou antes de ontem. Tivemos três dias de folga. Programei tudo para ir ao norte, a Atar e a Arguim. Liguei para o Afonso, em Nouakchott, que não. Era perigoso, os terroristas mataram onze militares mais o seu guia civil. Foi pena. Ficámos por aqui. Que desperdício. Duas idas a Bakel e um bolo de chocolate. Foi o que se pode fazer. Amanhã voltamos ao trabalho. Veremos se desta vez é a sério… As chuvas estão de partida, este ano foi bom, quatro meses de chuva, é coisa rara por estes sítios. Daqui por duas semanas acabou-se o verde e mais duas desaparece também o amarelo, fica só o vermelho dos solos.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Um Ano na Mauritânia
18 De Agosto de 2007
6:00 am – Tocou o despertador. Acordei para um dia completamente inesperado apenas duas semanas antes. O dia da minha viagem para a Mauritânia. Foi o dia em que mais me custou levantar e despachar em muitos anos. A Guida fez-me dar um beijo ao Xavier, coitado estava de tal modo a dormir que não deu qualquer sinal, quando o agarrei para o beijar. A Inês, como sempre aparenta maior autocontrolo e deseja-me boa viagem.
18 de Agosto de 2008, 2ª Feira. Faz hoje um ano. Que estou nesta terra. Parece mentira. Fazendo uma retrospectiva. Hoje choveu loucamente. Quando cheguei a Nouakchott, só me apeteceu apanhar o avião de volta. O primeiro choque é brutal. Não há nada que nos prepare. Não sei se as pessoas que mais gosto. Alguma vez. Aceitarão. Compreenderão. Não sei se alguma vez. Estarei preparado para esta terra. Liberta-nos. Amarra-nos. Sei que estou a passar ao lado da vida. Dos meus. Hoje tive uma queda brusca da temperatura. Corporal. Não parava. De tremer. Tive que vestir um polar! Tive que colocar. O ar condicionado. No quente. Se qualquer dia é bom para uma retrospectiva. Os números redondos. São-no mais. Após um ano em África. Dou mais valor à amizade. As dificuldades trazem ao cimo. O melhor. O pior. Das pessoas. Os amigos são os do berço. E. Os que em tempos difíceis. Nos fazem acreditar. Que ainda é possível. Os meus filhos. Sentindo a minha falta. Perdendo cumplicidades. Estando tão longe. A minha esposa. Sentindo-se só. Espero que. Alguma vez. Sentados à lareira. Apreciemos cada dia. Juntos. Que não haja. Sombras. Entre nós. Neste caso. A distância. Faz-me apreciar cada vez mais. O que tenho em casa. Na 4ª Feira. Dia 13. Fizémos 16 anos. De casados. Com todas. As situações. Dificuldades. Voltava a casar. Hoje. A sinfonia. Das rãs. Rodeia-me. É inacreditável. São milhões. Para a semana. Regresso a casa. Até já. Embora. Só tenha vindo à um mês. As saudades. Apertam. Hoje. Compreendo. Aceito. Muito mais. A diferença. Acho que estou. Mais rico. Nada como ver. Outras gentes. Outras culturas. Para perceber. Quão fúteis. São a maioria. Das nossas querelas. De ocidentais. Aburguesados. De barriga. Saliente. A religião. Que nos é. Apresentada. Com tantas certezas. Com tantos dogmas. É preciso. Escutar. O mundo. A política. A diferença.
6:00 am – Tocou o despertador. Acordei para um dia completamente inesperado apenas duas semanas antes. O dia da minha viagem para a Mauritânia. Foi o dia em que mais me custou levantar e despachar em muitos anos. A Guida fez-me dar um beijo ao Xavier, coitado estava de tal modo a dormir que não deu qualquer sinal, quando o agarrei para o beijar. A Inês, como sempre aparenta maior autocontrolo e deseja-me boa viagem.
18 de Agosto de 2008, 2ª Feira. Faz hoje um ano. Que estou nesta terra. Parece mentira. Fazendo uma retrospectiva. Hoje choveu loucamente. Quando cheguei a Nouakchott, só me apeteceu apanhar o avião de volta. O primeiro choque é brutal. Não há nada que nos prepare. Não sei se as pessoas que mais gosto. Alguma vez. Aceitarão. Compreenderão. Não sei se alguma vez. Estarei preparado para esta terra. Liberta-nos. Amarra-nos. Sei que estou a passar ao lado da vida. Dos meus. Hoje tive uma queda brusca da temperatura. Corporal. Não parava. De tremer. Tive que vestir um polar! Tive que colocar. O ar condicionado. No quente. Se qualquer dia é bom para uma retrospectiva. Os números redondos. São-no mais. Após um ano em África. Dou mais valor à amizade. As dificuldades trazem ao cimo. O melhor. O pior. Das pessoas. Os amigos são os do berço. E. Os que em tempos difíceis. Nos fazem acreditar. Que ainda é possível. Os meus filhos. Sentindo a minha falta. Perdendo cumplicidades. Estando tão longe. A minha esposa. Sentindo-se só. Espero que. Alguma vez. Sentados à lareira. Apreciemos cada dia. Juntos. Que não haja. Sombras. Entre nós. Neste caso. A distância. Faz-me apreciar cada vez mais. O que tenho em casa. Na 4ª Feira. Dia 13. Fizémos 16 anos. De casados. Com todas. As situações. Dificuldades. Voltava a casar. Hoje. A sinfonia. Das rãs. Rodeia-me. É inacreditável. São milhões. Para a semana. Regresso a casa. Até já. Embora. Só tenha vindo à um mês. As saudades. Apertam. Hoje. Compreendo. Aceito. Muito mais. A diferença. Acho que estou. Mais rico. Nada como ver. Outras gentes. Outras culturas. Para perceber. Quão fúteis. São a maioria. Das nossas querelas. De ocidentais. Aburguesados. De barriga. Saliente. A religião. Que nos é. Apresentada. Com tantas certezas. Com tantos dogmas. É preciso. Escutar. O mundo. A política. A diferença.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Golpe de Estado
6ª Feira, 8 de Agosto. O pessoal que foi de férias, saiu daqui na 2ª Feira às 11 da noite. Apanharam uma tempestade pelo caminho, que lhes partiu três vidros do jipe e os deixou encharcados. Passaram uma noite no caminho pois a estrada estava cortada. Apanharam um golpe de estado, quando esperavam o avião. O aeroporto foi encerrado. Já saíram, quando escrevo, mas só chegam à Madeira no domingo. Há dias de sorte… Por aqui hoje tive que trabalhar, pois betonaram-se duas placas de um radier, e tive que as ir marcar. Durante a semana passaram-se aqui algumas curiosidades. A saber. No domingo, fomos beber uma bejeca aos chineses e foi engraçado ver que estavam numa sala quatro pessoas, uma portuguesa, uma marroquina, uma brasileira e uma chinesa. Se repararmos era um cidadão europeu, outro africano, um americano e ainda um asiático. Só faltou mesmo um australiano… Na 2ª fui a Bakel com o Messias e o Hassane, para o ravitaillement…, pois o Messias fazia 44 anos e estava seco. À tarde os médicos chineses vieram ver a nossa horta e lavaram, alfaces, couves, pimentos e pepinos. Ficaram encantados pois nesta altura não há verduras para comprar. Na 3ª recebi finalmente a minha carrinha, um mês e meio depois da avaria. Na 4ª houve um golpe de estado. Na 5ª chegou finalmente o aguardado cimento. Na 6ª trabalhei. (Aqui a 6ª é dia de descanso).
segunda-feira, 28 de julho de 2008
De volta a Selibaby
2ª Feira, 28 de Julho. Volto à escrita um mês depois. As férias já lá vão. A Bênção do Gado terminou hoje, com a devolução da imagem do Senhor Jesus. Só pude assistir aos primeiros dias, mas ainda deu para ver muitos ausentes como eu, que voltam à terra nestas ocasiões. Ainda pude assistir a dois concertos da minha Inês, um em Constância e outro em Torres Novas. No meu regresso à Mauritânia, fiquei três dias em Bakel, devido às chuvas. Na véspera da minha chegada foram só 160 litros em 24 horas… Acabei por chegar a Selibaby só na quarta-feira. E teve que ser o Demba a ir-me buscar, porque os portugueses, tiveram todos medo. A primeira noticia que tive foi que a minha carrinha, que é uma Toyota Hilux, como 50% dos carros na Mauritânia, ainda não está arranjada por falta de peças… A do Rafa é uma Mitsubishi L200 e está parada à dois meses… por falta de peças. Com a chuva cinco camiões nossos ficaram retidos em Garfa por sete dias. O andamento dos trabalhos é agora penoso. Na sexta-feira a Caren e a Amanda vieram almoçar connosco, para se despedirem do pessoal. No sábado partiram de vez. A Joni e o Nick, já tinham partido quando cheguei. A equipa que me ajudou a passar algum tempo aqui em Selibaby, partiu. As despedidas são sempre emotivas. Quando sabemos que serão definitivas são-no ainda mais. Mas se há sempre alguma coisa de nós que se perde com as despedidas, também ganhámos algo em troca, no mínimo memórias dos momentos partilhados. Que se tornarão difusas com o tempo… A minha horta está bem e recomenda-se. O milho já tem dois metros de altura e bandeira ao vento. As alfaces semeadas há um mês já estão a ser comidas, tal como os rabanetes. Pepinos nem se fala, apanhamos todos os dias. As bananeiras estão todas bem vivas. Duas papaieiras também. Ontem fizemos um jantar no nosso churrasco, aproveitei para assar alguns pimentos (picantes), era ver o pessoal a comê-los todo contente e a mudar de cor e a beber muita água. Estamos agora no meio da estação das chuvas, aqui denominada hivernage, a temperatura é agora bem mais suportável, +- 30 graus, as pessoas daqui cultivam todas as zonas baixas, principalmente, milho, feijão e amendoim.
domingo, 29 de junho de 2008
Jardin do moi, em Sélibaby
Tempestade de Areia
Depois foge que se faz tarde. A velocidade do vento é muito grande. A visibilidade desce quase para zero.
Por fim quase deixamos de ver a nossa central de betão.
Desta vez não veio chuva após a poeira. Por vezes a chuva que vem depois faz muitos estragos. Desta vez ficámos pelas imagens, a natureza não deixa de nos brindar com exemplos da sua capacidade destrutiva, como quem diz, Não são só vocês que podem estragar "isto".
sábado, 28 de junho de 2008
Vida em Sélibaby
Atravessei o Rio Senegal a nado.
Sábado, 28 de Junho. Conseguimos betonar tudo o que estava preparado, antes da chuva. Quatro placas de 20 metros cada. Não esperava tanto. A terraplanagem está a andar bem. A chuva veio para ficar. Na 4ª feira vimos umas centenas de águias. É na zona de Jedida, pk 13+500. É espectacular. Por volta das 4 da tarde começam a regressar aquela zona. É pena não ter uma máquina fotográfica boa. Ontem o Jamaldine, quando regressava de férias, foi arrastado pelas águas, ao atravessar um Oed, perto de Mbout. Ficou-se pelo susto, mas faz-nos pensar na fragilidade da vida humana. Faz-nos pensar o que fazemos aqui, neste fim do mundo. Para acabarmos engolidos por um mar de lama. No meio do deserto, suprema ironia. Se já sabíamos que todos os cuidados são poucos, ficámos mais despertos para redobrar a atenção. Ontem foi dia de Bakel. Fui eu mais o Rafa, o Baltazar e o Álvaro, por acaso os quatro continentais da obra, ainda a Caren e a Joni. Para elas foi a última vez que foram a Bakel, pois a sua partida para a América está cada dia mais próxima. Foi um dia porreiro. Atravessei o Rio Senegal a nado, atrás do barco. A corrente estava forte, e eu não sou grande nadador. Mas já está. Consegui. A maioria do pessoal não quis ir. Tiveram medo da chuva. Não sabem o que perderam. A minha partida para casa está aí. Faltam só três dias. Parece mentira, que, já passaram três meses, desde que regressei à Mauritânia. Vêm aí uns dias em Fuengirola para carregar baterias. Por aqui a temperatura baixou muito, com a chegada da chuva. Hoje semeei duas variedades de alfaces, acelgas e rabanetes. Temos comido alfaces e pepinos todos os dias. Também comemos muitas couves, verdes, da minha horta. Se houve alturas em que duvidei que conseguíssemos comer algo de lá, agora é quase todos os dias. Quando cavei os canteiros para semear, vi minhocas. Isto significa que a terra está a ficar equilibrada. É bom sinal.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Mais chuva
2ª Feira, 23 de Junho. Afinal a betonagem não começou no sábado. Choveu tanto na noite de sexta para sábado, que inviabilizou a betonagem. Ficou tudo submerso. Betonámos sim no domingo. Correu bem para primeira vez. Hoje vi a previsão do tempo. Dão chuva a partir de sábado até quarta. Quarta é o dia da minha partida para Portugal… Vamos lá a ver o que isto dá. Para já o Messias quer betonar todos os dias até lá, para ver se consegue safar aquilo. Sempre que chove fica tudo cheio de lama. O Baltazar quer ir embora. Não admira. Estes gajos (Portugueses) dão cabo da paciência a um santo. Pássaros. Esta zona até Outubro é um espectáculo, para quem gosta de pássaros. Preciso de uma máquina com uma boa objectiva.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Os Deuses devem estar loucos
2ª Feira, 16 de Junho. Nesta noite de domingo para segunda, pude confirmar que os deuses devem estar loucos. Choveu inimaginavelmente. O vento soprou acima dos 100 km/h. As casas estremeciam a cada trovão. A quantidade de raios era tanta, que mais parecia dia. Pelas 3 e meia da manhã, quase todos os tugas estavam na rua. Aqui o céu cai-nos encima da cabeça, como os gauleses temiam. A horta do Lino ficou destruída. Os barrotes partiram e caíram. O muro caiu. Os cabos de suporte da rede quebraram. De manhã saí com o Messias e o Rafa. Chegar à cidade foi difícil. A obra estava porreira. Parecia que lá chovera pouco. O Zé começou a trabalhar pelas 8 e meia. Fui à zona de Moudji. No local mais difícil até Gouraye. Tudo OK. Pouca água. Vim à base buscar o Gregório. Vai trabalhar para a obra do Senegal. Levei também a Kim. Vai para Rosso. Cheguei a Gouraye e toda a gente começou a perguntar pela minha saúde. Voltei rápido a Selibaby. Só o tempo de tratar do barco e pedir o carimbo no passaporte do Gregório. Em Moudji já passei com água à altura do capo. Até à base tudo bem. À noite jantar em casa. Fez o Messias. Muito bom. Feijoada à brasileira. Com feijão preto. Farofa. Couve de manteiga (frita). Noite porreira. O cozinheiro Álvaro, viveu muitos anos no Vale da Serra. É amigo do Joaquim Alberto. O mundo é pequeno.
6ª Feira, 20 de Junho. Ontem a Joni fez uma piza em nossa casa. Serviu para alegrar a desfeita dos alemães, no Euro 2008. Hoje dia em Bakel. Despedida de Bakel para a Joni, o Nick, a Amanda e a Caren. Quando escrevo, o Messias está a preparar o lume para assar carne para o jantar. O Hassane apareceu-me de Bubu para buscar a cerveja que lhe trouxe. Amanhã às 6 da manhã começa a betonagem da placa do Radier. O Betão de limpeza está pronto.
6ª Feira, 20 de Junho. Ontem a Joni fez uma piza em nossa casa. Serviu para alegrar a desfeita dos alemães, no Euro 2008. Hoje dia em Bakel. Despedida de Bakel para a Joni, o Nick, a Amanda e a Caren. Quando escrevo, o Messias está a preparar o lume para assar carne para o jantar. O Hassane apareceu-me de Bubu para buscar a cerveja que lhe trouxe. Amanhã às 6 da manhã começa a betonagem da placa do Radier. O Betão de limpeza está pronto.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Carimbos
5ª Feira, 12 de Junho. Ontem voltou a chover, mas, desta vez pouco. Na 2ª Feira fui buscar o Rafa a Bakel. Trouxe os carimbos para a polícia de Gouraye. Ficaram todos contentes. Trouxe-me pão de milho e azeite Português, fiz umas couves com feijões, à moda de Riachos, ficou tudo a chorar por mais. Com a chuva finalmente o pessoal percebeu que tinha que defender a obra. As melhorias vêem-se. Estou com uma constipação do “caraças”. Fico lixado quando estou doente. Ontem começou o betão de limpeza no Radier do pk 10. Tivemos que parar por avaria da central de betão. Na minha horta já nasceram as cebolas, os rabanetes e as cenouras, mais pepinos, melancias, courgettes e milho. Já começo a pensar na viagem para Portugal, faltam pouco mais de duas semanas. No Euro 2008, as coisas vão bem para nós. Até ver…
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